António Fernandes Delicado
Crónica 2 (01-05-2026)
Músicos de Alegrete, com História
Depois de ter feito uma abordagem global sobre o Mundo Filarmónico, na minha primeira crónica, volto hoje para vos falar de Músicos com História que se destacaram na Filarmónica de Alegrete.
Começo, justamente pelo primeiro músico – SÉRVULO MARIA FERNANDES: descendente de uma família da Cidade da Guarda, residia em Portalegre onde trabalhava numa loja de fazendas com o pai. Era dotado de grandes conhecimentos musicais.
Por volta de 1867, um grupo de alegretenses desejosos de notoriedade política, decidiu fundar em Alegrete uma Filarmónica. Conforme citei na primeira crónica, a maioria das filarmónicas nasceu desta forma.
SÉRVULO MARIA FERNANDES foi convidado por este grupo para vir para Alegrete criar uma Filarmónica a que foi dada a identificação de SOCIEDADE PHILARMÓNICA UNIÃO E RECREIO.
Aqui se instalou com a família até à sua morte em 1890.Foi o primeiro músico da Filarmónica de Alegrete – tocava Serpentão; como instrutor formou os primeiros músicos; foi o primeiro maestro desta Filarmónica por ele criada cujo percurso, com muitas glórias e alguns desatinos já leva 158 anos de vida.
De entre os seus discípulos destacou-se o filho JOSÉ AUGUSTO FERNANDES. Chegou a Alegrete com o pai, ainda muito jovem mas já com alguns conhecimentos musicais. Ajudou o pai na formação da Filarmónica como instrutor e músico e em 1890 assumiu a direcção da mesma como maestro, até 1919.JOSÉ AUGUSTO FERNANDES foi das personalidades mais importantes na história da Filarmónica de Alegrete: exerceu funções como músico e como maestro durante 52 anos; participou em Órgãos Directivos; formou novos músicos; foi pilar importante na sobrevivência da Filarmónica durante a maior crise por ela vivida.
Muitas colectividades sucumbiram, ao longo do tempo, em consequência de conflitos de opinião e de ódios que se geram no seu interior.
O principio de que a música é universal não passa, muitas vezes, disso mesmo. Parece que esta filosofia continua actual !!!
Voltando à crise de 1910: ninguém conseguiu travar confrontos verbais e por vezes físicos no seio da Filarmónica gerados por divergências políticas – é que Monárquico é Monárquico, Republicano é Republicano e a coabitação entre estas duas espécimes, mesmo em linguagem musical ( universal ) era explosiva. Daí ao desmembramento da União e Recreio foi um curto passo!
Porém, JOSÉ AUGUSTO FERNANDES, já casado com uma alegretense, apaixonado por Alegrete e pela Filarmónica que com seu pai tinha criado, empenhou-se com tal convicção que evitou que a crise não passasse disso mesmo, conforme nos relata um jornal da época:
"Organizou-se nesta Villa uma pequena troupe de amadores de música, composta por nove artistas, todos dotados de boa vontade, preferindo ocupar as horas vagas n'alguma coisa agradável e útil, a frequentarem a taberna, alimentando o ócio e a crítica indigna
.… no dia 23 celebrou-se uma festividade em louvor a São Sebastião e foi por aquele referido grupo que a música vocal e instrumental foi executada na dita festa de igreja, sob a regência do nosso amigo JOSÉ AUGUSTO FERNANDES, havendo-se mui regularmente e com gáudio e aplauso dos apaixonados"
JOSÉ AUGUSTO FERNANDES faleceu em 1919, deixando a sua amada Filarmónica restaurada: os músicos tresmalhados voltaram - "porque a alma alegretense é mesmo assim" – Contratou-se um novo maestro e deu-se início a uma nova época. Nasceu a SOCIEDADE FILARMÓNICA ALEGRETENSE.
Com a presente crónica desejo:
- Prestar homenagem a estes dois grandes amigos da Filarmónica de Alegrete:
SÈRVULO por a ter criado!
JOSÈ AUGUSTO por a ter salvo de morte prematura !
- Convidar a uma sempre oportuna reflexão - os factos aqui descritos são intemporais, repetem-se!
- Homenagear os músicos que hoje como ontem continuam a merecer o nosso respeito, o nosso reconhecimento. PARABENS pela vossa presença, hoje, na abertura da Feira de Doçaria de Portalegre!
ESTAMOS VIVOS, PARA CONTINUAR A FAZER HISTÓRIA!
