António Parente
Crónica 2 (22-10-2026)
Pelas veredas do lobo e do lince
As histórias dos nossos bichos
O urso-pardo — o gigante das antigas florestas de Alegrete
Uma viagem ao passado natural da Serra de São Mamede
A nossa viagem começaria entre árvores de grande porte, clareiras naturais, matos densos e linhas de água escondidas na vegetação. Nos lugares mais favoráveis, cresceriam carvalhos, sobreiros e azinheiras; noutros, medronheiros e castanheiros contribuiriam para uma paisagem diversificada, rica em alimento e abrigo para a fauna selvagem.
A vegetação da serra e as transformações que sofreu ao longo dos séculos são um tema estudado por Luís Bacharel, no trabalho Clima e vegetação na Serra de S. Mamede nos séculos XVI e XVII, publicado em 1992 na revista Ibn Maruán. A reconstituição exata de cada recanto permanece, contudo, difícil: não devemos imaginar uma floresta uniforme, mas antes um mosaico de bosques, matos, zonas abertas e terrenos utilizados pelas comunidades humanas.
Seria neste mundo antigo, mais agreste e menos transformado, que colocaríamos o protagonista desta história: o urso-pardo (Ursus arctos).Mas importa esclarecer desde já uma questão fundamental: está documentada a presença histórica do urso em Portugal, mas não dispomos, até ao momento, de prova documental que confirme a sua presença concreta em Alegrete ou na Serra de São Mamede. É precisamente entre aquilo que sabemos e aquilo que ainda procuramos descobrir que começa esta viagem.
Um gigante que não vivia apenas da caça
Apesar da sua dimensão e força, o urso-pardo não é um predador exclusivamente carnívoro. A sua alimentação é variada e pode incluir frutos silvestres, bolotas, raízes, insetos, mel e outros recursos disponíveis ao longo das estações, complementados, quando as oportunidades surgem, por alimento de origem animal.Num território com bosques de carvalhos, medronheiros, castanheiros e outras espécies produtoras de frutos, um animal com estas características poderia encontrar recursos importantes. Os bosques ofereceriam também abrigo, enquanto os vales e as zonas menos perturbadas poderiam proporcionar condições favoráveis à sua deslocação.
Esta descrição corresponde à ecologia geral do urso-pardo e à sua capacidade de aproveitar diferentes recursos alimentares. Não constitui, por si só, prova de que a espécie tenha vivido na Serra de São Mamede.
Fonte: Álvares, Francisco e Domingues, José (2010), «Presença histórica do urso em Portugal e testemunhos da sua relação com as comunidades rurais», AÇAFA On Line, n.º 3.Quando a vida selvagem se cruzava com a vida das comunidades
A história do urso não se escreve apenas através dos lugares onde viveu. Escreve-se também através dos conflitos que a sua presença provocou junto das populações rurais.Um animal de grandes dimensões, capaz de procurar alimento em terrenos cultivados ou de destruir colmeias para chegar ao mel, podia representar prejuízos consideráveis para quem dependia da terra e dos seus produtos. A relação entre o urso e as comunidades humanas deixou, por isso, marcas na documentação histórica e no património construído.
Em várias regiões da Península Ibérica foram construídos muros apiários robustos, concebidos para proteger as colmeias. Algumas destas estruturas, conhecidas em Espanha por colmenales, alvarices ou cortinos, apresentam paredes altas e soluções construtivas destinadas a dificultar a entrada do urso. Em Portugal também foram identificados muros com características semelhantes, embora a função concreta de cada estrutura tenha de ser avaliada com cuidado.
Estes vestígios mostram como a presença de grandes animais selvagens influenciou as técnicas e a arquitetura das comunidades rurais. Não autorizam, porém, a concluir automaticamente que todas as estruturas semelhantes foram construídas para afastar ursos, nem que a existência de um muro apiário prova, isoladamente, a presença local da espécie.
Fonte: Álvares, Francisco e Domingues, José (2010), AÇAFA On Line, n.º 3, especialmente a secção dedicada ao património construído associado ao urso.
O urso na história de Portugal
A presença histórica do urso-pardo em Portugal não é uma simples lenda. Está sustentada por documentos medievais e por referências de épocas posteriores, embora a distribuição da espécie e a data do seu desaparecimento do território nacional sejam questões que exigem uma leitura crítica das fontes.No século XV, existem referências documentais à caça ou à abundância de ursos em diferentes regiões do país. Entre os locais mencionados pelos investigadores encontram-se Moura e Portel, no Alentejo, além de áreas do interior como Pinhel, Trancoso e Ribacôa.
Estes registos são especialmente relevantes para a nossa história: demonstram que o urso chegou a ocorrer no sul de Portugal. Contudo, a presença documentada em Moura ou Portel não prova a sua presença em Alegrete. Para estabelecer essa ligação, seriam necessários documentos ou outros vestígios que apontassem diretamente para a nossa região.
A investigação de Francisco Álvares e José Domingues mostra ainda que a data de 1650, tradicionalmente indicada como a da extinção do urso em Portugal, não explica toda a evidência conhecida. Os autores reuniram referências posteriores, sobretudo relativas às regiões montanhosas do Norte e às zonas fronteiriças, que sugerem a sobrevivência da espécie muito para além dessa data.
A história do urso em Portugal é, assim, mais complexa do que a ideia de um desaparecimento súbito e definitivamente datado.
Fonte: Álvares, Francisco e Domingues, José (2010), AÇAFA On Line, n.º 3, secção «Presença histórica e extinção do urso em Portugal».
E Alegrete? Terá o urso percorrido estas serras?
É aqui que a investigação se aproxima da nossa terra — e onde precisamos de distinguir a curiosidade histórica da prova.Há quatrocentos anos, a organização administrativa do território era diferente da atual. Antes da reforma de 27 de outubro de 1855, o concelho de Alegrete abrangia áreas que hoje associamos a outras freguesias, incluindo territórios relacionados com as atuais freguesias de São Julião e do Reguengo.
Esta diferença é importante. Quando procuramos referências antigas à fauna, não podemos limitar a pesquisa aos nomes e aos limites administrativos de hoje. Um documento referente a um lugar que atualmente pertence a outra freguesia pode ajudar a reconstruir a história natural do antigo território de Alegrete.
Ainda assim, até encontrarmos uma fonte histórica que mencione o urso nesta região, não podemos afirmar que aqui viveu.
Podemos, isso sim, colocar uma pergunta legítima: teria um animal com a ecologia do urso-pardo encontrado condições para percorrer estas serras numa época em que existiam extensas áreas de vegetação natural e menor transformação da paisagem?
É uma possibilidade que merece ser investigada, não uma conclusão já demonstrada. A existência de habitat potencial não comprova a presença de uma espécie; e o silêncio das fontes também não permite garantir que ela nunca tenha passado por aqui.
Talvez uma referência esquecida num arquivo, uma descrição antiga ou um estudo futuro venha a esclarecer esta questão. Até lá, a pergunta permanece em aberto.
O desaparecimento de um gigante
A redução da área de distribuição do urso-pardo na Península Ibérica resultou de uma combinação de fatores, entre os quais a perseguição humana e a transformação ou destruição dos habitats naturais. A espécie acabou por desaparecer de Portugal, embora a documentação histórica revele que a sua presença persistiu em algumas regiões muito depois das datas de extinção tradicionalmente aceites.Atualmente, não existem populações residentes de urso-pardo reconhecidas em Portugal. Na Península Ibérica, a espécie sobrevive em populações localizadas nas montanhas do Norte de Espanha, onde a sua conservação depende da proteção dos habitats, da redução dos conflitos com as atividades humanas e da continuidade dos esforços de recuperação.
Fontes: Álvares e Domingues (2010); Álvares et al. (2017), «Espécies extintas ou duvidosas», em Atlas de Mamíferos de Portugal.
Uma presença que continua a interrogar-nos
Regressemos agora à nossa viagem imaginada.Entre os carvalhos, os medronheiros e os castanheiros, imaginamos uma sombra pesada a mover-se discretamente por entre a vegetação. Talvez fosse apenas um veado a atravessar uma clareira. Talvez um javali remexesse o solo húmido. Ou, na liberdade da imaginação, talvez um urso procurasse alimento nas antigas serras.
Não sabemos se esse encontro alguma vez aconteceu em Alegrete. Não temos, por agora, documentação que nos permita afirmá-lo. E é importante respeitar esse limite, porque a história natural de uma terra merece mais do que certezas inventadas.
Mas a ausência de uma resposta definitiva não torna a pergunta menos interessante. Pelo contrário: lembra-nos quanto ainda há para descobrir sobre a paisagem que os nossos antepassados conheceram, sobre os animais que a habitaram e sobre as mudanças que transformaram o território ao longo dos séculos.
Conhecer a natureza de Alegrete é também procurar as suas memórias mais antigas — nas fontes escritas, nos vestígios da paisagem e nas perguntas que continuam sem resposta.
E talvez seja essa uma das maiores riquezas destas veredas: ensinar-nos que, por vezes, proteger a história de um lugar começa por reconhecer honestamente aquilo que sabemos e aquilo que ainda precisamos de descobrir.
Fontes e bibliografia
- Bacharel, Luís (1992). «Clima e vegetação na Serra de S. Mamede nos séculos XVI e XVII». Ibn Maruán, n.º 2. Revista Cultural do Concelho de Marvão. Consultar a revista em PDF.
- Álvares, Francisco; Domingues, José (2010). «Presença histórica do urso em Portugal e testemunhos da sua relação com as comunidades rurais». AÇAFA On Line, n.º 3, Associação de Estudos do Alto Tejo. Consultar o artigo integral.
- Álvares, Francisco et al. (2017). «Espécies extintas ou duvidosas». In Atlas de Mamíferos de Portugal. Consultar o documento.
