Luísa Vaz Tavares
Crónica 1 (03-04-2026)
Alcunhas/Anexins de Alegrete
Ao aceitar escrever estas crónicas, aceitei entrar no seio da oralidade das nossas gentes, com todo o carinho e respeito que o "passe a palavra" dentro da comunidade me merece. Apesar de ter sido desse modo que muito do conhecimento chegou até aos nossos dias, hoje, se não se escrever corre o risco de se perder. Vou por isso falar-vos das alcunhas do nosso povo, tema para o qual me parece que temos uma natural aptidão.
Alcunha ou anexim, como diziam os mais antigos da nossa freguesia, é uma maneira informal de identificar alguém, na maior parte das vezes mais identificativa até que o próprio nome oficial da pessoa. Dentro dos círculos sociais mais pequenos pode mesmo servir para distinguir mais rapidamente entre pessoas com nomes idênticos. E há-as chegadas das mais diversas formas a um determinado indivíduo.
Há aquelas que outrora o foram e de tanto serem repetidas se tornaram apelidos de família. Como, por exemplo, Grilo. Há entre nós famílias com o apelido Grilo. Será que em algum longínquo tempo, Grilo terá sido alcunha? Não o sabemos, mas a dúvida é legítima.
Porém também as há por apego a algum familiar, normalmente, mãe, pai, marido ou mulher. Ao meu pai, que lhe calhou ser da Teresa, por ser filho de outro da Teresa, esse sim filho de uma Teresa, marcou-o uma figura feminina maternal. Mas também há os da Adelina, o da Gertrudes, o da Joana, os da Tide ou os da Menina Maria Inês, todos ligados a uma matriarca sobressaliente. No entanto, se há filhos que ficam com o nome da mãe acrescido ao seu, o mesmo acontece com os pais; e desses há o do Narciso, o do Mata-Frangas, os do Pereira, os do Zé do Squinho, os do Vinte e Um, os do Patanisca e mais alguns haverá. Em relação aos cônjuges, lembro-me do Manel que é da Nazaré, do João que é da Alice, da Mariana que foi do Zé da Gata e da Tonha que é do Floriano.
Depois veem os que levam consigo o sítio onde nasceram, cresceram, viveram ou vivem e então temos os da Bela, das Borregueiras, da Bica d'Aires, das Mesas, do Sobral, d'Acenha, do Ribeiro das Vacas, das Fontes, da Lajeira, da Courela, entre outros. Aqui falo também da minha família materna, que não sendo da nossa freguesia, é mesmo daqui ao lado e tem como anexim familiar da Eira.
Temos também os que se identificam com a profissão que exercem ou exerceram: o Moiral, o Carteiro, o Ferrador, a do Café, que trabalhou no primeiro café da vila, assim nomeado, o Guarda-Rios, o Barbeiro, o Cadeireiro e os Padeiros, que a todos eles a alcunha se lhes agregou.
E em maior número ainda são os anexins de família, que de pais a filhos, a irmãos, tios e a primos, a todos pertence; ressalvando que todos os atrás referidos podem, simultaneamente, estar aqui. Temos a família da Bôla, a do Pata, a do Zica, a Ferramenta, a Gaiato, a Cartuxo, a Calhau, a Gama, que o é só de alcunha, a Pôpa, a do Chana, a do Carapuça, a Batata, a Pulga, a Açorda, a do Feliz, a do Fino, a Solas, a Tripa, a Troncho, a Ouriço, a Chanquelho, a Côva, a Bichinho, a Borrego, a Algibeira, a do Calete, a do Puma, a Manhoso, a d'Ouro, a das Burrinhas e, com certeza, mais algumas.
Por fim, aqueles anexins que são atribuídos a uma só pessoa, que surgem na infância ou na juventude e os acompanham a vida inteira. São normalmente baseados nalguma característica física ou em algum comportamento repetitivo e, na minha opinião, demonstram o cuidado para com o próximo, pois têm origem na observação atenta e de certa forma crítica daqueles que nos rodeiam. Há os que são elogiosos, e quem não gosta de um bom elogio? Mas em relação aos mais depreciativos, também ninguém leva a mal, porque se o levar logo cai em desuso. E destes há o Giló, o Quinta a Fundo, a Ti Carroça, o Clora, o Clorofila, o Arranha, o Sapec, o Pê, que na verdade é Policarpo, o Peixinho, o Cantador, o Cuco, que é filho da Cuca, o das Meninas, o Larguras, o Pleca, o Pazadas, o Kapa, o Pirata, o Mobi, o Penico, de outro Penico descendente, o Camolas, o Facheta, o Passarinho, o Pilheiras, o Cien, o da Santa, o Sapata, a Farrusca e a Brunha, mulheres sem igual, o Gato, o Xibanga, o Grande, o Bigula, o Furriel, o Pagela, o Papo-Seco, o Galapito, o Sem-Cú, porque em jovem era muito magrinho, e em matéria de magreza, também temos o Fininho, o Bailim que também é Mestre e de Mestres ainda temos o Larentina.
Sei que escrevi no presente, apesar de alguns dos nomeados já não se encontrarem entre nós, mas a sua memória permanece e esta minha narrativa é no sentido de homenagear todos os verdadeiros homens e mulheres da nossa terra.

