Hermenegildo Correia
Crónica 2 (15-05-2026)
O Pe. Américo Ribeiro Agostinho nasceu em São Pedro do Esteval (Proença-a-Nova), em 7 de setembro de 1936.
Apesar de não ser natural de Alegrete, "(…) ficou sempre muito ligado a Alegrete, e se saíu da vila, Alegrete nunca saíu dele, [aqui] mantendo relações e amigos por toda a vida, e falando desta terra sempre com carinho e admiração" (in Jornal Alto Alentejo, 2 de junho de 2021).Nesta crónica vamos privilegiar a ação e intervenção do Pe. Américo em Alegrete, sem descurar outros aspetos do seu percurso, nomeadamente o percurso religioso, o percurso enquanto docente, o percurso enquanto escutista, a sua paixão pela música.
O Pe. Américo foi ordenado Presbítero para Igreja Diocesana em 9 de julho de 1961 pelas mãos do Bispo D. Agostinho Lopes de Moura. No ano da sua morte (2021), completava 60 anos de sacerdócio.
Começou por servir a Igreja diocesana em Portalegre como coadjutor e, logo de seguida, em Ponte de Sor. Em 1964 foi nomeado pároco em Alegrete e Reguengo e, mais tarde, encarregado da Paróquia da Urra. Em 1983 foi nomeado Vigário paroquial das Paróquias da Sé e de S. Lourenço, em Portalegre, e em 2000 foi nomeado Capelão do Centro de Instrução de Portalegre da Guarda Nacional Republicana (CIP da GNR). Em 2002 foi nomeado para Alagoa e Fortios onde permaneceu como Pároco até ao seu falecimento, sendo também Assistente do Secretariado Diocesano da Pastoral Social e Mobilidade Humana e do Corpo Nacional de Escutas (CNE), Agrupamento 142.
(In Jornal Alto Alentejo, 26 de maio de 2021)
O Pe. Américo foi também Professor de Religião e Moral desde 1963, primeiro na Ponte de Sor e, depois, em Portalegre. Aqui foi também, posteriormente, professor de Português no ciclo (Escola Preparatória de Cristóvão Falcão) e depois na Escola Industrial (Escola Secundária de S. Lourenço) (in Jornal Alto Alentejo, 2 de junho de 2021).
Um ex-aluno seu, hoje também professor, exprime-se nestes termos, sobre o Pe. Américo:
"Conheci o Pe. Américo Agostinho com 12 anos. Nunca foi meu confessor. Raramente participei numa eucaristia presidida por si. Por estranho que pareça, é para mim estranha a sua imagem de sacerdote paramentado (…) Conheci o Pe. Américo em Portalegre, sim, mas na Escola Secundária de S. Lourenço, como professor de Português. Sinceramente, não recordo o conteúdo das suas aulas. Ainda assim permanece na minha memória como um dos docentes que mais me marcou. Generoso, sensível sem pieguices, dotado de um excelente sentido de humor (por vezes desconcertante perante os gaiatos que éramos), marcou-me pelo modo alegre e próximo como se dava aos outros, a nós em especial (…)" (Ruy Ventura 'Recordando o Pe. Américo Agostinho' in Jornal Alto Alentejo, 2 de junho de 2021).
O Professor António Martinó, amigo do Pe. Américo e colega dele na Escola Preparatória de Cristóvão Falcão, escreve o seguinte:
"Lidei com ele, no quotidiano, quando ambos integrámos o elenco docente da saudosa Escola Preparatória de Cristóvão Falcão, na década de 70 do passado século. O seu espírito de escuteiro levava-o à fácil participação em atividades ao ar livre e algumas interessantes iniciativas interdisciplinares levámos a cabo nos terrenos envolventes ao edifício escolar.
E quantos animados serões passámos, com outros amigos, na sua casa em Alegrete!" (in blog Largo dos Correios, 26 de maio de 2021).
A forte ligação do Pe. Américo ao escutismo (com décadas de envolvimento), traduziu-se na animação e dinamização de grupos de jovens, favorecendo deste modo a sua formação cívica e humana. Um exemplo, entre muitos outros, foi a formação de um grupo ORFF em Alegrete, do qual saíram mais tarde alguns músicos que ingressaram na Banda Filarmónica de Alegrete (in Conversa informal com António Delicado, 12 de abril de 2026).
A Banda Filarmónica de Alegrete foi, aliás, uma das suas grandes paixões.
"(…) desde o início da sua missão em Alegrete, esteve ligado à filarmónica, pela qual se apaixonou como um alegretense nato:
- presidiu à assembleia geral e à direção, durante cerca de 30 anos;
- envolveu-se de alma e coração no projeto de construção da nova sede, que, enquanto presidente da direção administrou" (Delicado, A. F. – Filarmónica de Alegrete. As memórias que o tempo guardou. Lisboa: Edições Colibri, pág. 163), tendo também um papel fundamental na angariação de fundos para a nova sede (juntamente com Dinis Pacheco e Fernando Trindade) (in Conversa Informal com António Delicado, 26 de abril de 2026).
Podemos, portanto, afirmar que o Pe. Américo tinha paixão pela música, o que pode ser ilustrado também por ser orfeonista, integrando o Orfeão de Portalegre (in Jornal Alto Alentejo, 2 de junho de 2021).
O serviço pastoral do Pe. Américo durou cerca de 60 anos. Como sugerido nas observações anteriores, o ministério em Alegrete (onde permaneceu como pároco entre 1964 e 1978) foi, talvez, aquele que mais o marcou.
Como referimos acima, o Pe. Américo foi nomeado pároco em Alegrete (e Reguengo), em 1964. E, mais tarde, encarregado também da paróquia de Urra. Segundo testemunho do professor António Delicado, a opção por Alegrete, aconteceu na sequência de um estágio de formação enquanto seminarista. Alegrete tê-lo-á encantado (in Conversa informal com António Delicado no dia 12 de abril de 2026).
A ação do Pe. Américo em Alegrete foi bem mais que uma ação religiosa. O Pe. Américo envolvia-se na vida quotidiana da vila, visitava pessoas em casa, conhecia praticamente todas as famílias, ajudava em problemas concretos (pobreza, isolamento, conflitos). Não se limitava a organizar apoio, envolvia-se pessoalmente, "punha as mãos na massa" (in Conversa informal com António Delicado, 12 de abril de 2026).
Um exemplo que ilustra as observações anteriores: o seu papel na Santa Casa da Misericórdia de Alegrete. No início do seu ministério em Alegrete, em 1965, encontrou a instituição inativa e desorganizada, situação que vinha desde o início do séc. XX (Testemunho de Maria do Carmo Serrote, 19 de abril de 2026). Foi convidado para Provedor naquele ano e aceitou. Teve um papel muito importante na sua reorganização e dinamização. O professor António Martinó escreve o seguinte sobre este papel:
"Reconhecendo as virtualidades cristãs do Graal [movimento progressista de inspiração cristã que visa a participação cívica das mulheres de todo o mundo na sociedade e uma vida com sentido e qualidade para todas as pessoas, e onde desempenharam papel preponderante, por exemplo, Maria de Lurdes Pintassilgo, Teresa Santa Clara Gomes, Teresa Vasconcelos, Manuela Silva], então muito à frente da sua época, o Padre Américo integrou-o numa perspetiva de desenvolvimento comunitário da vila de Alegrete, aí implantando um Jardim de Infância, Cursos de Saúde e Higiene Materno-Infantil, atividades de Tempos Livres, Cursos de Alfabetização, tudo inserido no suporte jurídico da Santa Casa da Misericórdia. Foi por ele traçado e seguido um plano de recuperação que incluiu a criação da valência de Centro de Dia, que passou a funcionar num edifício da Praça, assim como a instalação do atual Lar na antiga Casa do Povo de Alegrete" (in blog Largo dos Correios, 26 de maio de 2021).
Segundo Francisco Pacheco, a ligação do Pe. Américo ao Graal, é fundamental para compreender que "Alegrete viesse a ter um dos primeiros jardins de infância em Portugal, nos anos 60, com características substantivamente diferentes do panorama da Educação de Infância na época (…)" (in Comentário ao 'Retrato da Santa Casa da Misericórdia de Alegrete', Clotilde Fonseca, Facebook, 8 de maio de 2026), ou seja, um jardim de infância em que as preocupações educativas assumiam já uma relevância importante.
No mesmo sentido vão as observações de Abílio Amiguinho: "Na década de 60, do passado século, Alegrete e a Vargem tiveram o privilégio, no espírito de pioneiros e pioneiras ligados ao Graal, como Teresa Santa Gomes, Manuela Silva, Maria de Lurdes Pintassilgo, localmente com o Padre Américo, entre outros, de uma histórica intervenção comunitária, naquele tempo adverso, envolvendo a juventude e os mais vulneráveis, conjugando Educação de Adultos e Serviço Social (…) (in Comentário ao 'Retrato da Santa Casa da Misericórdia de Alegrete', Clotilde Fonseca, Facebook, 8 de maio de 2026).
O Pe. Américo não foi apenas um padre. Foi também um agente de intervenção social e comunitária que promoveu o desenvolvimento local, impulsionando a criação de instituições de apoio à infância (jardim de infância) e a idosos (centro de dia, lar), dinamizando grupos de jovens, promovendo a sua participação e cidadania, empenhou-se no conhecimento e valorização do património de arte sacra (Ruy Ventura – 'Recordando o Pe. Américo Agostinho' in Jornal Alto Alentejo, 2 de junho de 2021). Tinha uma "grande preocupação e uma atenção muito forte com os mais vulneráveis, os pobres e com as causas da pobreza" (in Cáritas Diocesana de Portalegre-Castelo Branco, 27 de maio de 2021). Tudo isto mais compreensível, voltamos a referi-lo, devido à sua ligação ao Graal.
O Pe. Américo formou os vários órgãos sociais da Santa Casa da Misericórdia de Alegrete, dinamizando o seu funcionamento. Neste âmbito, desencadeou o processo eleitoral para um novo Provedor, ficando como Presidente da Mesa da Assembleia Geral até ao seu falecimento (in Testemunho de Maria do Carmo Serrote, 19 de abril de 2026).
A sua ação foi amplamente reconhecida: há uma rua com o seu nome em Alegrete. Em 2015, foi agraciado pela Câmara Municipal de Portalegre com a 'Medalha de Mérito Municipal Grau Ouro'. Em 2018, recebeu o 'Colar de Nuno Álvares', a mais alta recompensa e distinção concedida no Corpo Nacional de Escutas, que premeia os serviços extraordinários e excecionalmente relevantes prestados ao Movimento Escutista.
Maio de 2026
Hermenegildo Correia
