Luísa Vaz Tavares

Crónica 2 (29-05-2026)

Ditos Populares Alegretenses


Mais uma vez, nesta minha segunda crónica, vou entrar na oralidade das nossas gentes, e mais uma vez o faço com todo o carinho e respeito que tenho por esta forma de transmissão de conhecimento. Talvez, a mais importante ao longo de todos os tempos.

Com tradições bastante arreigadas e uma maneira única de olhar a comunidade, as gentes de Alegrete criaram algumas formas de comunicação muito próprias, que as unem, num sentido de pertença comum. São expressões que entraram no nosso linguajar e foram passando de geração em geração, repetindo-se, muitas vezes já sem se lhes saber a origem. Baseadas num ou noutro comportamento ou em algum conto que corre de boca em boca, elas permanecem, até que a oralidade as deixe cair no esquecimento. Para que isso não aconteça, temos de nos tornar, todos em conjunto, não só guardiões de memórias, mas também transmissores das mesmas. Assim, aqui ficam alguns ditos que por cá se vão ouvindo, nas conversas quotidianas, outros, de que já quase ninguém se lembra.

Como por exemplo…Estás à espera de quê, da morte da Bezerra? Diz-se a alguém que não se decide ou não se desenrasca a fazer qualquer coisa.

Bem sei que em muitas vilas e aldeias do país existe uma bezerra e todos pensam na sua morte, mas em Alegrete, não, em Alegrete não se pensa, em Alegrete espera-se a sua morte. Porque a Bezerra, que morava lá para os lados da Caganita, tivera uma vida tão longa, que nunca mais acabava. E ainda por cima tinha sempre a casa que era um disfarce.

Ou…
Sabugo, senhor Abílio! Diz alguém que se aborrece ou que lhe acontece algo inesperado e desagradável.

Ora, o senhor Abílio seria o proprietário de uma loja de artigos diversos, onde, antes de haver distribuição porta a porta, ficava o correio, para que a população aí fosse perguntar pela sua correspondência. E então, havia uma figura também bastante conhecida como o tontinho da comunidade, que um dia chegou ao postigo da loja e pergunta "há aí alguma coisa para mim?" Mas o senhor Abílio, adepto da sua sestinha depois de almoço, foi apanhado naquela hora sagrada e respondeu, "está ali um fardo de palha". E logo obteve como contrarresposta "sabugo, senhor Abílio!"

Ou ainda…És como a Valéria, não se mete contigo metes-te tu com ela! Diz-se a alguém que é um pouco cabeça no ar e gosta de andar sempre na brincadeira.

Sendo a Valéria a última aguadeira de Alegrete, era alguém que andava sempre na rua e, portadora de um certo grau de ingenuidade mental, toda a gente se metia com ela e ela respondia com algumas brejeirices.

E também…

Todos a balhar à porta fechada e o Tonho Maria a espreitar por baixo dela. Quando alguém tem uma curiosidade excessiva.

Esta expressão nasce num tempo em que em Alegrete havia os chamados bailes de elite. Os bailes de elite eram destinados à camada social mais alta, só ia quem era convidado e eram, portanto, à porta fechada. O Tonho Maria seria alguém que tinha curiosidade sobre o que se passava lá dentro e foi espreitar por baixo da porta.

E por último…

Larga da unha, Rafael da Cunha. Diz-se às crianças, quando mexem onde não devem, e também dizem as raparigas para os rapazes mais atrevidotes.

Penso que o Rafael representa os Maneis, Joaquins, Albertos e todos os outros, e da Cunha é só apenas porque rima.

Estas são só algumas das expressões do nosso povo, mas muitas mais haverá, que é necessário preservar, como forma da nossa identidade coletiva. Digam-me, quais são as que vocês sabem?