Abílio Amiguinho
Crónica 2 (24-04-2026)
Até chegar aqui, a paisagem é de montado de sobro, onde alguns pinheiros teimaram em brotar, e um ou outro eucalipto vingou dado que alguém os plantou. A carqueja e a estevas associaram-se, no que voltou a ter a forma de bosque. Alguém com quem falo diz-me que eram terras de centeio há três quartos de século atrás. A cada ano lavradas por parelhas de muares então, e antes por juntas de bois, ajudando na preservação dos muitos sobreiros.
Por São Mamede, o retorno destes bosques, significativamente empobrecidos em relação aos originais, foi o resultado segundo Castro Antunes, Engenheiro amante da Serra e que já não se encontra, lamentavelmente, entre nós, de um desvario de profundas e nefastas consequências. Exatamente quando no final da década de 30, do passado Século, nem os frágeis solos da Serra escaparam à famigerada Campanha do Trigo. Bastaram 3 ou 4 anos de cultivo, após a desflorestação, para que se percebesse quão vão era o propósito, enquanto a camada produtiva do solo escorria encostas abaixo. A lixiviação dos solos empobreceu-os e tornou-os mais ácidos, onde pouco mais que estevas e urzes conseguiram vingar.
Na orla do bosque, no fundo vale por onde o Sovrete desce em curvas e contracurvas pronunciadas, de um mais baixo relevo desenhado pelas pequenas cristas rochosas, a paisagem altera-se profundamente. O prenúncio é do Lentisco bastardo - Phillyrea angustifolia - , que à data da Romaria Anual à Senhora da Lapa, apenas um ou outro apresenta as suas características bagas. Percorre-me a imagem das suas folhas bem mais viçosas com flores de um branco sujo e que se assomam entre elas, a clamar pelos polinizadores, o que sucede na primavera.
Entretanto a Urze roxa ou Torga/Torga ordinária, já se anunciou, a espaços. A singular Urze, das muitas da Serra que, cientificamente falando que não é Erica, mas Calunna, precisamente a Calunna vulgaris. Pincelam as bermas dos vários caminhos, na mais pequena elevação, entre o delgado da terra e os xistos que se esboroam ao mais leve toque. Nada exigentes, em solo e humidade, agora no epílogo da estiagem, estes encantos de lilás ou violeta, com laivos de magenta, eu sei lá!, que parecem alevantar-se à nossa passagem para que demos por eles, como num sussurrado: "aqui estamos". Alguém me diz, com idade de muita experiência e saber, e quem calcorreou aqueles cantos e recantos que a natureza desenhou, como contrabandista, que as suas raízes também davam bom carvão.
Mas é a Erica arbórea, uma das duas urzes brancas da Serra, que agora se ergue sobremaneira à nossa volta, em altaneiros arbustos, a que mais recorriam os seculares carvoeiros e lenhadores, registo que remonta ao século XIV, com necessidade de especial licença para o efeito. As suas folhas de um verde esbatido são o principal daquela paleta a que natureza recorreu. Imagino, por momentos, quando em Fevereiro e Março, se encherem de flores de corolas brancas, com estigmas vermelhos que delas pendem, como badalinhos de minúsculos sinos. Recuo mentalmente no tempo para contemplar como se recolhiam os cecídios das raízes, tal qual galhas, que enclausuram ameaças de fatores externos, como fungos ou micróbios, tornando aqueles pedaços da madeira das cepas especiais para a confeção de cachimbos e de … castanholas, tão arreigadas na tradição popular e da tradição erudita da musica dos nossos vizinhos ali mesmo ao lado (ouço naquele ermo, vindo de lá, com a sonoridade própria que me propicia, um trecho de Manuel de Falla). Não nos surpreendamos pois, se por ali, virmos chegar um nosso vizinho do outro lado da fronteira, por qualquer vereda ou caminho, subindo aquela íngreme encosta que se alevanta lá desde o seu Bacoco. Ou de mais longe dada a devoção que por ali também se tem pela Sra da Lapa. Mais simplesmente, talvez também tocado pela paisagem que se olha de baixo para cima, como se a Sra estivesse a subir ao céu. Foi vontade que me deu quando por ali andei. A conversa com alguns residentes por ali revelou-me o encanto de quem por lá persiste, numa Extremadura de fronteira que também se foi esvaindo de gente. Nutrindo um especial enleio com vales cortados por cursos de água – que rebatizaram – e que a nossa Serra deixa escapar por ali abaixo.
Se debruçados, cá por cima, sobre o cavado vale há pontos de verde mais carregado. São de medronheiros que, ao perto, não só nos mostram os frutos vermelhos como as flores em campânula de um branco rosado e em cacho que darão os do próximo ano, nesta altura. Por isto, este Arbutus unedo quase não tem paralelo: frutos e flores em simultâneo. Agradece ao ar mediterrânico de influencia da Serra, soprado quase sempre vertiginosamente, ululando vale acima, aberto a sudeste.
Enquanto os olho, sou interpelado pelo bater das asas do levantar voo dos grifos que repousam nas cristas quartzíticas das fragas do lado oposto do vale, a meia encosta. A que se junta no silencio daquela manhã de um setembro a deixar o verão, o piar da Águia de Bonneli.
Num dos dias que ali estive na anual Festa/Romaria, com naturais do Concelho de Alegrete, aldeia de Besteiros e forasteiros, faltou a tradicional procissão mas não faltaram os romeiros. Coube-me falar, um pouco antes, em tertúlia, no recinto das festas, sobre a paisagem que descrevi, para posteriormente ali nos deslocarmos. Já sem o fervor religioso de outros tempos, mas com notas e momentos, de tempos em que a religiosidade popular se sobrepôs aos éditos eclesiásticos que a quiseram moldar à sua maneira. Como sempre a visita à Capela e aos pés da Senhora, implicou transpor o altar e viajar por momentos pelo culto milenar que a gruta acolheu, por diversas divindades ou entes a que se orava, e de que as Pinturas Rupestres constituem o primeiro testemunho. Tempo ainda para a romagem ao que resta de um Castro de tempos ainda mais recuados, patente, segundo o Prof. Jorge Oliveira, com quem partilhei esta jornada e os seus muitos saberes, no amontoado de pedras a esmo, mas também em vestígios de aparelhamento. Onde estar já em Espanha não se percebe bem, aparentemente como resultado da apropriação daquele espaço, com frequência por portugueses e espanhóis em romaria, oração e, sobretudo, festa conjunta. E ainda à Lamparona, de que só restam as paredes, mas ainda na memória dos mais velhos, onde sobretudo Franco mas com a cumplicidade de Salazar, participavam "neutralmente" na Segunda Grande para auxiliar qualquer avião transviado, com sinal luminoso indicativo… Ao que me contaram também ali os algum contrabandista também ali encontrava referência, se acaso perdido, em noites de profundo breu. Ali sente-se o peso dos lugares que a natureza foi erguendo na sua formação, e depois foi chamando gente não há dezenas, mas centenas, e mesmo milhares de anos.
Outono dentro ali voltei. Então para complementar observações anteriores que invoquei. Sobretudo para avaliar, num ano pródigo da micobiota que frequentemente passa despercebida na paisagem. Os Boletos de outono enxameavam o nicho ecológico a par da grande profusão de Russulas, em particular da Negrilha – Russula cyanoxantha - , na designação popular dos vizinhos espanhóis que também conhecem bem o lugar, petisco que desde lado da fronteira ainda não ganhou fama. Mas para os apreciadores daqui também não faltavam os bem mais conhecidos Tortulhos – Macrolepiota procera – ou espécies afins!
