Gonçalo Pacheco

Crónica 11  (14-06-2026)

"A Garota Não" é o nome artístico de Cátia Mazari Oliveira, setubalense nascida no ano de 1983. Na sua discografia incluem-se três discos, que nos são apresentados como verdadeiras peças de artesanato, pelo cuidado na sua concepção gráfica e elaboração física: "Rua das Marimbas" de 2019; "2 de Abril" de 2022 e "Ferry Gold" de 2025. Do ponto de vista musical qualquer um deles é excelente.

A escolha deste nome ficou a dever-se ao facto de, nos primeiros tempos da sua carreira, quando cantava em bares de Setúbal, uma das suas mais reconhecidas interpretações ser "A Garota de Ipanema". Sempre que cantava em algum lugar, pediam-lhe esta canção. Até que um dia se cansou e começou a responder aos pedidos com a frase "A Garota Não". E assim ficou.

"A Garota Não" é, provavelmente, o mais interessante projecto musical português dos nossos dias, pela sua qualidade artística, pelo cuidado dos arranjos e, sobretudo, pela qualidade das letras, com um forte comprometimento social. Nelas se reflecte sobre os grandes problemas da sociedade portuguesa, desde a dificuldade em se arranjar uma casa e em pagar uma renda justa, "qual é a coisa qual é ela, quem tem tanta gente sem casa, e tanta casa sem gente, e um camone à janela", à violência doméstica e à discriminação de género ou o crescimento dos discursos de ódio, "é urgente destruir certas palavras, ódio, solidão e crueldade, alguns lamentos e muitas espadas". Nas suas canções/ poemas nada fica por dizer, mas desengane-se quem pensa que estamos perante canções de intervenção clássicas.

As suas canções demonstram a urgência das palavras e da denúncia das arbitrariedades, mas também a urgência do amor e da solidariedade. São canções de cidadania e liberdade, de quem não fica apenas a ver o tempo correr e as injustiças crescerem.

Sendo injusto destacar um disco, mesmo assim refiro "2 de Abril" como um dos melhores discos de música portuguesa que ouvi em muitos anos. 2 de Abril é a data em que foi aprovada a Constituição da República Portuguesa e é, também, o nome do bairro onde Cátia nasceu e cresceu. O bairro onde "há crianças que continuam a ir para a Escola de estômago vazio, mulheres que apanham em casa, rapazes que se tornaram velhos sem terem sido homens".

Este disco é uma preciosidade para quem acredita no valor da música como forma de transformar e melhorar o mundo, para quem acredita que a música não é um mero entretenimento, que traz consigo o poder de mudar a nossa forma de ver o que nos rodeia.

Se escolher um dos seus discos é tarefa complicada, escolher uma canção ainda se torna mais difícil. Mas porque "A Garota Não" é, talvez, a mais directa descendente dos gigantes do Olimpo da música portuguesa, José Afonso e José Mário Branco, tendo actuado várias vezes ao lado de Sérgio Godinho, escolhi a última canção do disco "Canção a Zé Mário Branco- Liberdade", aqui num registo ao vivo.

Mas o convite é para que a sua obra seja ouvida na íntegra. Poucas vezes as canções foram tão autênticas e nos interpelaram tão directamente. Mas não é para isso que também serve a música?