Gonçalo Pacheco
Crónica 12 (21-06-2026)
O disco "Semear Salsa ao Reguinho" assinalou, no ano de 2025, 50 anos de existência. Este álbum marca a estreia discográfica de Vitorino Salomé, cantor e músico oriundo de uma família de músicos do Redondo, onde nasceu em 1942. Conta que desde que nasceu que ouvia música na sua casa, tocada pelos seus tios.
Conheceu José Afonso quando fazia a recruta no Algarve, tendo iniciado aí uma colaboração e amizade que durou até à morte de Zeca. Aos 20 anos foi viver para Lisboa, onde descobriu os prazeres que a cidade oferecia. Com 26 anos entrou para o curso de Belas Artes.
Entretanto emigrou para França, onde estudou pintura e, para sobreviver, lavou pratos em restaurantes. Foi aqui que um amigo lhe disse que se ganhava mais a cantar na rua ou no metro do que a lavar pratos. Experimentou: era verdade. Largou os pratos e agarrou na guitarra. Também foi em Paris que conheceu José Mário Branco e Sérgio Godinho.
Em Março de 1974 participou no célebre concerto "1º Encontro da Canção Portuguesa", que anunciava a chegada de novos tempos e que terminou com os cantores no palco, e o público na plateia a cantar, a uma só voz, "Grândola Vila Morena", perante a estupefacção dos agentes da PIDE. Nessa altura já colaborava com Fausto, que viria a ter um papel importante na sua carreira, pois foi o produtor do seu primeiro disco, aquele de que hoje ouvimos uma canção.
Não vivendo no Alentejo, o Alentejo nunca saiu de si, apesar de ao longo da sua carreira ter viajado até Cuba para gravar com o "Septeto Habanero" ou ter musicado diversos poemas do seu grande amigo António Lobo Antunes, entre tantos projectos e colaborações.
É exactamente uma ode ao Alentejo que se pode escutar ao longo deste disco, que 50 anos depois conserva uma frescura e uma qualidade que muito o distinguiu dos discos da chamada música de intervenção gravados naquela altura. Também se distingue de um disco etnográfico, pois com a colaboração de Fausto deu novas roupagens a clássicos como "Menina estás à janela", "Vou-me embora vou partir". O disco tornou-se um clássico, sendo uma carta de amor ao Alentejo, às suas gentes e personagens, constando do mesmo sete temas tradicionais cuja recolha e arranjo foi feita pelo próprio Vitorino.
Pensado para edição antes do 25 de Abril, "Semear Salsa ao Reguinho" iria transformar-se, editado um ano após a revolução, num portento musical fundado na tradição alentejana, que se libertava depois do silenciamento imposto pela ditadura, e num grito poético e político pela liberdade e pela dignidade. "O que me estava na cabeça era refazer o cante alentejano de maneira que fosse melhor entendido e resgatá-lo dos textos que eram obrigados a cantar os cantadores". Com a folclorização desenhada por António Ferro, director do Secretariado de Propaganda Nacional e do Secretariado Nacional de Informação, Cultura Popular e Turismo nos anos 1930 e 1940, que "dividiu o país em províncias, cada província com um género musical", e com a vigilância imposta ao que cantavam, como cantavam e como socializavam os cantadores, o cante perdera o "conteúdo contestatário" que vinha ainda do século XIX. "Também quis resgatar isso", afirma Vitorino.
A canção escolhida "Cantiga d'um Marginal do século XIX" é uma homenagem a todos os que andavam de terra em terra, fartos da polícia "civil ou republicana", a vender luas sem pagar imposto de transacção. Um Alentejo bem diferente, nos tempos e nos gostos, daquele que hoje enxameia as rádios e televisões através dessa recente descoberta que foi as "Boys Band alentejanas" que nos querem fazer crer que basta colocar um sotaque alentejano para se produzir qualquer coisa de semelhante ao Cante Alentejano. Há-de passar. No Alentejo privilegia-se o vagar, o bom gosto. E também a insubmissão, de que esta belíssima canção é um digno exemplo.

