Gonçalo Pacheco
Crónica 13 (28-06-2026)
João Eduardo Salomé Vieira será, à primeira vista, um nome desconhecido. Mas este é o nome completo de Janita Salomé, quarto de cinco irmãos nascidos no Redondo e que fundaram, em 1977, o Grupo de Cantadores do Redondo, que se dedica, ainda nos dias de hoje, a perpetuar a tradição do cante alentejano.
Consta que canta desde os nove anos, sendo que aos dezasseis integrou o conjunto "Planície", como baterista e vocalista e, mais tarde, os "Vagabundos do Ritmo". Por essa altura procurava ainda um rumo musical, que apenas encontrou após o 25 de Abril, quando contactou pela primeira vez com a música de José Afonso. A partir daí passou a investigar e trabalhar a tradição musical popular.
Em 1980, Janita foi recrutado por Zeca Afonso para o acompanhar em palco, profissionalizando-se como músico e abandonando o seu emprego de funcionário judicial. No mesmo ano em que se juntou ao grupo de Zeca Afonso, gravou o seu primeiro disco em nome próprio "Melro" onde explora a tradição musical alentejana mas regista, igualmente, fados de Coimbra, cujo gosto lhe fora incutido pelo pai.
Ao longo da sua carreira já gravou mais de uma dezena de discos, sendo que nalguns deles se aproximou das sonoridades mediterrânicas, sobretudo após uma estadia em França, onde descobre a música árabe da Argélia e Marrocos. Está finalmente encontrada a estrela que norteará a partir daí a sua música: a procura dos laços que unem a tradição popular alentejana com a música tradicional árabe. Para a elaboração desses discos, vários dos quais premiados, contou com a colaboração de músicos como Pedro Caldeira Cabral, João Gil, Júlio Pereira, Rui Júnior Carlos Zíngaro, José Peixoto ou José Mário Branco. Durante este período, Janita começa a explorar o teatro, quer compondo música para algumas produções quer surgindo inclusive como actor no grupo A Barraca.
De toda a sua vasta obra, talvez seja justo destacar o projecto "Vozes do Sul" de 2000, um trabalho que representa a verdadeira celebração do canto alentejano sob todas as suas formas. Este trabalho discográfico conta com as colaborações de grupos corais e etnográficos como As Camponesas de Castro Verde, da Casa do Povo de Serpa os Ceifeiros de Pias, os Cantadores do Redondo, Bárbara Lagido, Catarina Salomé, Filipa Pais, Marta Salomé, Patrícia Salomé e Vitorino e ainda com a participação especial de músicos dos Corvos e dos Gaiteiros de Lisboa.
Janita Salomé é um cantor com recursos vocais únicos, que lhe permitem apropriar-se de qualquer canção e torná-la sua.
É exactamente o caso da canção escolhida para ilustrar esta crónica: "Os Homens do Largo". Esta canção, brilhante, foi composta pelo seu irmão Vitorino, que a ofereceu para integrar o seu primeiro disco, o já referido "Melro". A canção retrata a rotina solitária dos homens que passam os seus dias nas praças, marcados por uma espera constante e silenciosa e resume a busca por algum conforto em pequenos hábitos diários, como seja mais um copo para aquecer. A letra, de um dureza tão poderosa quanto tocante, evidencia a sensação de abandono de quem se "cola à brancura das paredes dos quintais", sentado à espera do vento norte e que já nada espera da vida "já não espera mágoas nem dá danos a ninguém". Poucas vezes se fez um retrato tão sofrido da solidão e do esquecimento no Alentejo.
Não tendo encontrado um registo aceitável onde se possa ouvir esta canção na sua plenitude, deixo a ligação para o disco "Melro". "Os Homens do Largo" é a primeira canção, ocupando os primeiros três minutos e meio da audição. Ver menos

