António Parente
Crónica 1 (24-09-2026)
Foi-me proposto pelo Francisco Pacheco que escrevesse um artigo sobre a fauna da freguesia de Alegrete.
Confesso que hesitei. Entre a hesitação e o orgulho, fui falando com algumas pessoas e, entre todas, houve uma opinião que, para mim, foi a mais importante: a da minha filha, que me apoiou incondicionalmente.
Foi então que resolvi aceitar o desafio.
Meti os binóculos bem calibrados, fui buscar à memória algumas histórias e registos do passado e pensei: vamos lá, que se faz tarde.
Nesta minha primeira abordagem, gostava de começar por uma visão mais geral. E, estando aí à porta as Festas em Honra de Nossa Senhora da Lapa, vou tentar falar da riqueza faunística de toda a zona envolvente à capela e ao vale da ribeira de Soverete.
Mas, antes de começar, gostava de vos explicar a razão do título que resolvi dar a estes artigos.
O lobo-ibérico (Canis lupus signatus, Cabrera, 1907) e o lince-ibérico (Lynx pardinus) são dois dos animais que fazem parte da nossa história natural e que, outrora, tiveram uma presença muito mais alargada no território português.
Como sou um saudosista e considero estes dois animais dois dos maiores expoentes da nossa fauna autóctone, confesso que tenho esperança de voltar a ter notícias deles por estas terras.
E, no caso do lince-ibérico, essa esperança ganhou ainda mais força há cerca de dois anos, quando tive a oportunidade de registar aquilo que, posteriormente, foi confirmado através da análise das imagens das pegadas, numa situação que acompanhei juntamente com o Centro Nacional de Recuperação do Lince-Ibérico.
Mas essa é uma história para contar mais à frente, quando falarmos, com maior pormenor, deste magnífico felino.
Por agora, vamos abrir os olhos, afinar os binóculos e percorrer as veredas de Alegrete à procura das histórias dos nossos bichos.
Vamos então caminhar
Vamos então passear, de binóculos em riste, por toda esta magnífica zona, que, na minha opinião, é uma das mais selvagens e ricas em termos faunísticos de toda a região.
Naturalmente, vou falar sobretudo daqueles animais que os nossos olhos — e os binóculos — conseguem descobrir com maior facilidade.
Centrarei esta caminhada essencialmente na mamofauna, na avifauna e na herpetofauna, grupos com os quais tive oportunidade de trabalhar ao longo da minha vida profissional.
Na mamofauna, tive o privilégio de aprender e trabalhar com o António Mira. Na herpetofauna, muito do que sei devo ao João Pargana, do Parque Natural da Serra de São Mamede. Na avifauna foram vários aqueles com quem tive oportunidade de aprender e trabalhar, mas permitam-me destacar o Miguel Caldeira Pais.
A todos eles fica o meu reconhecimento e agradecimento.
Porque, no campo, há coisas que nenhum livro ensina da mesma maneira. Aprendem-se a observar, a escutar, a interpretar os sinais e, sobretudo, a conhecer e respeitar a natureza.
E é precisamente esse olhar que vos quero trazer nesta caminhada.
Estou parado junto à capela de Nossa Senhora da Lapa e subo à rocha onde a capela foi cravada.
No alto, encontro uma latrina de gineta, com dejetos ainda frescos.
É uma boa maneira de começar.
Muitos dos nossos mamíferos têm hábitos crepusculares ou noturnos e, por isso, nem sempre se deixam observar facilmente. Mas deixam sinais.
Pegadas, dejetos, marcações e outros vestígios são uma verdadeira linguagem do campo.
Quem aprende a interpretá-los consegue descobrir a presença de animais que provavelmente nunca chegará a ver.
Cada espécie deixa a sua assinatura.
Desço da capela e sigo pela linha de raia, em direção à Lamparona.
Pouco depois, reparo num eucalipto bastante raspado. À primeira vista, poderia tratar-se da marca deixada por um veado ou por um javali, espécie que por aqui apresenta uma população bastante significativa.
Mas, para uns olhos mais experientes, a dúvida rapidamente desaparece.
A altura a que se encontravam as marcas denunciava a presença do veado-europeu.
Pouco depois, a confirmação chegou da melhor maneira possível.
Deparo-me com um magnífico macho de veado-europeu, com uma imponente armação de sete pontas.
Fico alguns segundos a observá-lo.
É nestes momentos que percebemos que estar no campo é muito mais do que caminhar.
É saber parar.
Continuo o meu percurso e, pouco depois, um coelho-bravo surge a espreitar o sol.
Outrora muito abundante por estas paragens, o coelho-bravo parece estar novamente a marcar presença com maior frequência.
E não é o único.
Também o corço, depois de ter desaparecido de muitos destes territórios onde outrora existiu, começa novamente a aparecer.
Um deles cruza-se comigo já pelas alturas da pedreira.
Foi rápido.
Quando me apercebi, já tinha passado.
Mas há encontros que duram apenas alguns segundos e ficam na memória.
Olho para o céu.
Um bando de grifos sobrevoa a zona.
São presenças já habituais nestas paisagens e, por aqui, há mesmo casais que nidificam.
Mas, com os binóculos, descubro algo mais.
Um casal de abutres-pretos.
Não conheço nenhum ninho desta espécie por estas paragens, mas que nos fazem muitas visitas, fazem.
Ao contrário dos grifos, que aqui encontram condições para nidificar, estes grandes abutres utilizam a região sobretudo como área de passagem e alimentação.
E depois há o britango, o mais pequeno dos nossos abutres, que também utiliza estas paisagens.
Volto a olhar para a berma do caminho.
Mais um dejeto.
O que será?
Pela forma e pelo que contém, não tenho grandes dúvidas.
Texugo.
Omnívoro e discreto, deixa muitas vezes no terreno pequenas pistas da sua passagem.
A partir daqui, começo a caminhar ainda mais atento aos sinais que os nossos bichos possam ter deixado.
Mais à frente, uma pegada chama-me a atenção.
Pela forma e pelas dimensões, parece-me ser de fuinha.
Já tive oportunidade de observar esta espécie noutras ocasiões e o sinal encaixa perfeitamente.
O dia está cheio de acontecimentos.
Deixo esta zona e sigo em direção ao Souto Palmeiro, com o objetivo de atravessar a ribeira e continuar pela outra encosta.
É junto à água que surge mais uma surpresa.
Um pequeno lagarto atravessa rapidamente o meu campo de visão.
Não é o lagarto-comum.
Não é o sardão.
É um lagarto-de-água (Lacerta schreiberi).Uma espécie particularmente interessante da nossa herpetofauna, com uma presença muito especial na Serra de São Mamede.
Mal tenho tempo de o apreciar.
Rapidamente desaparece por entre a galeria ripícola, que aqui ainda se encontra relativamente bem conservada.
Continuo a caminhada.
Ao saltar sobre uma pedra, reparo noutro dejeto.
Desta vez, os restos de lagostim e algumas espinhas dão-nos uma pista preciosa.
Lontra-europeia.
E, pouco depois, tenho a recompensa maior.
Observo-a no meio de um pego, aparentemente entretida nas suas brincadeiras.
Que dia!Sigo caminho e, mais à frente, uma pegada volta a prender-me a atenção.
O tamanho, a forma e, junto dela, um dejeto utilizado como marcação territorial fazem-me parar.
Olho melhor.
Gato-bravo.
Afinal, continua por cá.
A minha memória recua cerca de vinte anos, quando tive oportunidade de observar um exemplar durante uma farolada, numa altura em que trabalhava com o António Mira.
Outro encontro que ficou guardado.
E agora, tantos anos depois, parece que a espécie continua a marcar presença nestas serras.
Cada vez mais feliz com aquilo que o campo me vai oferecendo, sigo até à Cruz do Saragoça.
Aqui, as memórias são outras.
Durante muitos anos passei muito tempo nesta zona, acompanhando a monitorização do ninho da águia-de-Bonelli.
Aquele local teve um papel muito importante na conservação da natureza na Serra de São Mamede. A existência daquele casal e daquele território esteve ligada à defesa desta paisagem, numa altura em que a zona chegou a estar ameaçada pela instalação de uma monocultura de eucalipto.
Hoje, o velho ninho já não existe.
Cravado nas pedras sobre a ribeira, acabou por ser ocupado pelos grifos.
Mas levanto os olhos.
Uma silhueta corta o céu.
Binóculos em punho.
Pelo tamanho, pela cor e pela forma das asas, não tenho dúvidas.
Um casal de águias-de-Bonelli.
Já não vêm para aquele antigo ninho. Mudaram-se para um grande eucalipto, a poucas dezenas de metros da raia, na serra da Lamparona.
Mas estes céus continuam a ser o seu território.
E aquela ave parece-me claramente estar em voo de caça.
Não será por acaso que, do outro lado da fronteira, lhe chamam "águila perdicera".E, como se a paisagem tivesse decidido completar o quadro, um pouco mais à frente surge um casal de perdizes, acompanhado pelos seus pequenos perdigotos.
Já estou cansado.
Mas é aquele cansaço bom.
O cansaço de quem sente que o dia valeu a pena.
Sento-me então numa pedra.
Lembro-me de que, há cerca de trinta anos, alguém tinha escrito naquele local:
"Tarzan, dono da natureza."
Sorrio ao recordar outros tempos.
É enquanto estou perdido nessas memórias que volto a olhar para o céu.
Uma grande silhueta.
Binóculos em punho.
Nem mais nem menos do que um juvenil de águia-imperial-ibérica.
Outra espécie que chegou a estar extinta como nidificante em Portugal e que hoje voltou a fazer parte da nossa fauna.
Mais uma vez, Alegrete surpreende-me.
E começo a pensar naquilo que ainda poderia ter observado.
Lembro-me então de outra presença que tantas vezes cruza estes céus: a cegonha-preta.
Uma ave discreta, esquiva, mas que também encontra nestas paisagens os lugares de que necessita para viver e procurar alimento.
O dia chega ao fim.
Deito-me por cima de uma linha de rochas e olho para o que me rodeia.
Lembro-me então das palavras do professor Jorge Oliveira, que diz que estas pedras têm muitas histórias para contar sobre os nossos antepassados, através das pinturas rupestres que ainda guardam.
E penso que talvez seja essa a verdadeira magia deste lugar.
Aqui, as pedras contam histórias dos homens e o campo conta histórias dos animais.
Hoje foram muitos os bichos que se cruzaram comigo.
Alguns deixaram apenas uma pegada.
Outros, um dejeto.
Outros passaram pelo céu.
E alguns tiveram a gentileza de se deixar observar.
Mas todos eles fazem parte da mesma história.
A história natural de Alegrete.
Agora vou descansar.
Mas já estou a pensar em voltar.
Porque esta caminhada foi apenas o começo.
Ainda há muitas histórias dos nossos bichos para contar.
