Gonçalo Pacheco
Crónica 14 (05-07-2026)
Nesta curta viagem que fizemos pelo Alentejo, a mesma teria de terminar em Portalegre. E quando falamos de música em Portalegre, temos de falar obrigatoriamente do "Quarteto do Sol". Este quarteto, originalmente composto por António Eustáquio no piano, Domingos Redondo na voz, Joaquim Correia no acordeão e Celestino Raposo no sax soprano era, na realidade muito mais que apenas um quarteto, pois não podem ser esquecidos os nomes de Jorge Serra e Carlos García de Castro.
Não sei se alguma vez existiu em Portalegre um projecto musical tão consistente. A esse propósito, a revista musical espanhola dedicada à música tradicional "La Jila" publicou uma recensão critica ao único disco do "Quarteto do Sol". Discorria o autor do texto sobre a dificuldade de explicar por palavras a música do "Quarteto", já que esta consubstancia a magia, o romantismo e a poesia. Considerava ainda que a maior virtude da música do Quarteto era conseguir dar forma musical aos cheiros da sua terra o que, dizia, não está ao alcance de todos.
O "Quarteto do Sol" nasceu em 1993, numa tarde de Abril, a pretexto da apresentação do livro de poemas de Carlos Garcia de Castro "Os Lagóias e os Estrangeiros", ricamente documentado com as fotografias do Raul Ladeira. Mas terá de se retroceder no tempo para se encontrarem as suas origens, quando o saudoso Jorge Serra (Matcha) musicou "Os sinos de São Lourenço" e "Da cidade nasce o Povo" para o seu projecto "Cova da Moura", que noutras circunstâncias, e com outros apoios, teria tido a divulgação merecida.
Em 1993 Portalegre assistiu a um momento mágico, a partir das escadas da Igreja de São Lourenço, onde pela primeira vez foram apresentadas as músicas do quarteto, acompanhadas por um diaporama de Raul Ladeira. Logo nesse dia se percebeu que aquilo a que assistíramos não podia ficar por ali.
E assim foi. Em 1995 foi gravado, a expensas próprias, o único disco do grupo "Quarteto do Sol", composto por onze músicas e pouco mais de trinta e cinco minutos que ficam para a história da música e da cultura portalegrense, onde se casa a poesia de Carlos Garcia de Castro (que nos retrata e a nossa cidade de forma tão apurada) com as músicas de Jorge Serra, Domingos Redondo e desse genial compositor e instrumentista que é o António Eustáquio. O disco contou com o músico convidado Carlos Barreto no contrabaixo.
Infelizmente, o projecto não teria continuidade, ficando como um tesouro guardado na memória daqueles que tiveram a oportunidade de assistir ao concerto ou adquirir o disco.
No entanto, como escreveu na altura outro saudoso amigo, Luís Filipe Meira, talvez tenha sido a intemporalidade da sua música e a falta de justificação para o fim abrupto do projecto que os levou a participar num concerto do Orfeão de Portalegre na barbacã do Castelo de Portalegre.
A aceitação que esta actuação teve, junto de quem os conhecia, mas também pela surpresa de quem os via e ouvia pela primeira vez, levou a que fossem convidados para um concerto que assinalava os seus 25 anos. Esse concerto decorreu no CAEP em 2 de Fevereiro de 2019, sendo hoje uma memória inesquecível para todos os que tiveram oportunidade de assistir a um concerto muto cuidado, tanto ao nível do som como da iluminação.
É precisamente desse concerto que se ouvem três canções "Outro Nocturno", "Basta que Sim" e "Serra da Penha".
Como referi anteriormente, desconheço que Portalegre tenha tido um projecto musical com esta consistência. Uma cidade tão bem retratada nos versos de Carlos Garcia de Castro "… até que um dia o prazer da Cidade pequenina nos faça ter de morrer. Portalegre é quem destina. Basta que sim, tem de ser…"

