Gonçalo Pacheco

Crónica 15  (19-07-2026)

A realização, no passado dia 12, da tertúlia sobre o Graal e o seu papel social em Alegrete e noutras comunidades da região de Portalegre, levou-me a antecipar a crónica, que já estava prevista sobre Francisco Fanhais.

De facto, Francisco Fanhais, cuja formação inicial foi o sacerdócio, pode ser incluído, como o próprio Graal, na categoria de católicos progressistas, que tiveram um papel importante nas décadas de 60 e 70 do século passado, mostrando um lado mais humano e próximo dos ideais cristãos e, ao mesmo tempo, mais distante da hierarquia da Igreja Católica, tão próxima, quanto conivente, com o regime do Estado Novo.

Francisco Fanhais, que nasceu na Praia do Ribatejo em Maio de 1941, entrou para o Seminário de Santarém com dez anos. A sua formação incluiu passagens pelos seminários de Almada e Olivais, em Lisboa, onde se formou em Teologia. Foi ordenado padre aos 23 anos. Paralelamente à sua formação teológica dedicou-se ao estudo da música, tendo aprendido solfejo, canto gregoriano e canto coral.

A sua consciencialização política foi profundamente marcada pelo Concílio Vaticano II, reconhecendo que o alertou para as questões sociais e para a função da Igreja na sociedade. De recordar que em 1958 o Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, escrevera uma carta a Salazar, onde denunciava a situação de miséria vivida em certas regiões do distrito do Porto, o que conduziria ao seu exílio.

Outro momento da sua formação ocorreu quando em 1963, um seu professor do Seminário o aconselhou a ouvir o EP "Baladas de Coimbra" de Zeca Afonso, onde estavam "Os Vampiros" e "Menino do Bairro Negro". A audição, clandestina, desse disco, reconheceu mais tarde, foi "um autêntico murro no estômago" que o marcou para sempre.

A sua ligação ao padre José da Felicidade Alves, fortemente contestatário da política colonial do Estado Novo, de quem foi aluno, levou a que as suas missas fossem vigiadas pela PIDE. Em dezembro de 1968, quando era professor no seminário diocesano de Torres Novas, conheceu José Afonso, no âmbito de uma iniciativa cultural para jovens, vigiada pela PIDE, organizada por clérigos oposicionistas. Foi também coadjutor da paróquia do Barreiro, onde ensinava Religião e Moral no liceu da cidade.

Foi José Afonso que o convenceu a participar no programa "Zip-Zip" em 1969, o mais popular da televisão portuguesa da altura (gravado no sábado, mas transmitido na segunda-feira, para que a censura tivesse tempo para analisar o material gravado), tendo a sua actuação um impacto enorme, pois surgiu aí um padre católico a interpretar canções com poemas de forte pendor social e político. Começaram aí os seus problemas com a censura, que não queria que as suas canções fossem transmitidas. Foi a intransigência dos responsáveis do programa, que ameaçaram com o fim do mesmo se as canções não passassem, que permitiu a sua transmissão, não sem que as suas declarações e parte da entrevista tivessem cortadas.

Em agosto de 1970, esteve presente na cerimónia religiosa subsequente ao casamento do padre José da Felicidade Alves, à revelia da hierarquia da Igreja Católica, em Vila Franca de Xira. Consequentemente, foi suspenso do sacerdócio e impedido de ser professor. Perante o Tribunal Eclesiástico do Patriarcado de Lisboa, não se retratou e reiterou todo o seu comportamento.

A popularidade conquistada no programa levou-o a ser convidado para participar em inúmeras sessões e saraus por todo o país, sempre vigiado por informadores e agentes da PIDE, que registavam em relatórios mais ou menos pormenorizados, as suas actuações e intervenções, onde fazia questão de dialogar com assistência. Do seu processo existente na PIDE do Porto pode ler-se que, em Oliveira de Azeméis, quando questionado se tem tido aborrecimentos por causa da música, terá respondido "mais por causa das letras".

Também aí se pode ler, num documento enviado pelo chefe de gabinete do Ministro do Interior ao Director Geral de Segurança, que as informações recebidas através da PSP "mostram que o Padre Fanhais desenvolve em todo o país uma actividade indesejável, cantando baladas cujos temas não se compadecem com o clima moral que é preciso manter para assegurar a defesa do Ultramar e garantir a integridade da Pátria". Nesse sentido "devem ser sujeitos a censura prévia os textos das baladas que se propões cantar e só deverão ser autorizadas aquelas que a Direcção-Geral de Espectáculos tiver visado".

Em 1970 grava o seu único longa-duração "Canções da Cidade Nova" que, apesar de ter sido apreendido, fez o seu percurso através da clandestinidade, tornando-se as suas canções marcos da música de intervenção.

Em 1971, proibido de cantar, de exercer o sacerdócio e de dar aulas, emigra para França, ainda a tempo de participar na gravação de "Grândola Vila Morena". É, aliás, o único sobrevivente dos músicos que, na gravilha simulam os passos do cante alentejano com que se inicia a canção.

Regressa a Portugal depois do 25 de Abril e, apesar de não ter gravado mais nenhum disco, nunca deixou de cantar, tendo completado a formação de professor de Educação Musical, tendo sido professor até à sua reforma. Actualmente é o presidente da Associação José Afonso.

Para ilustrar o texto escolhi "Cantata da Paz", sobre um poema de Sophia de Mello Breyner que teve origem numa vigília de 150 católicos na igreja de São Domingos, em Lisboa, pela paz e contra a guerra colonial, na passagem de ano 1968/69.Cantata da Paz, que ficou conhecida pelos primeiros versos "vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar", é uma canção anti-guerra, onde se fala da bomba atómica, do Vietname e da guerra de África, e condena toda essa violência com as razões da moral cristã. Mas passado mais de meio século, a letra continua tristemente actual, pois continuamos a ver, a ouvir e a ler todo o tipo de atropelos aos direitos humanos, com tanta gente, tão poderosa, a ignorar.