Gonçalo Pacheco
Crónica 16 (26-07-2026)
Há vários tipos de coincidências, entre as quais as infelizes. A crónica de hoje é um desses exemplos. Já estava programado, para esta semana, um texto sobre o "Trovante", de forma a iniciar um pequeno ciclo sobre grupos e nomes marcantes da década de 80.A notícia da morte de Luís Represas apenas veio acelerar a urgência de salientar o "Trovante" como um dos mais importantes grupos da música portuguesa, que casaram como poucos a música tradicional com as sonoridades mais modernas que os anos 80 eternizaram, numa altura em que o chamado Rock Português dominava as rádios e televisões.
Formados em 1976, em Sagres, quando um grupo de 5 jovens (João Nuno Represas, Luís Represas, Manuel Faria, João Gil e Artur Costa) decidiram juntar para fazer música, os seus primeiros tempos foram fortemente influenciados pela música de intervenção, com o apadrinhamento do Partido Comunista. Segundo consta, contaram com o apoio de Carlos do Carmo que lhes emprestou 200 contos para a compra de material sonoro e instrumentos.
O seu primeiro disco "Chão Nosso" de 1977 é um disco com um forte cunho político, onde se pode ler na contra-capa que o chão é o "dos camponeses sem terra, dos oprimidos na estrada-oficina, das mãos obreiras de pão de cada dia, dos que nos deram a conhecer desta força, o lume".
No ano seguinte, já com a colaboração de Fausto nos arranjos, é editado "Em Nome da Vida", hoje um disco raro, onde se apercebe uma aproximação a outras sonoridades, como o rock sinfónico e a música brasileira. Por essa altura o grupo assumia uma postura marcadamente pacifista, mas ao mesmo encontrava-se numa encruzilhada, pois os seus discos passavam praticamente anónimos.
1981 é um ano fundamental na história do "Trovante" e da música portuguesa. Aquele que esteve para ser o seu último disco "Baile no Bosque", onde todas as fichas foram apostadas, numa estratégia de tudo ou nada, tornou-se o princípio de uma outra história, com o reconhecimento popular e a divulgação nas rádios e televisões, sendo convidados para os programas mais populares da altura. A sonoridade, assumidamente portuguesa, conjugando o rural e o urbano, era algo muito raro na música portuguesa, que demonstrava que havia outros caminhos. As suas canções passam a ser conhecidas e cantadas por todos, passando a integrar a história do cancioneiro português.
Sucedem-se os discos, e com eles verdadeiros hinos de uma geração, que são grandes sucessos de vendas e as suas actuações são verdadeiros acontecimentos (esgotaram o Coliseu dos Recreios em três noites seguidas).
Apesar do sucesso alcançado, não vemos nas suas músicas cedências ou facilitismos, talvez pela qualidade dos seus músicos e pelos anos de contacto com José Afonso, Vitorino, Sérgio Godinho ou o já referido Fausto.
Ao longo da sua carreira editaram oito discos de originais, a que se acrescentam alguns discos ao vivo. Em 1990, com "Um destes dias", o grupo lançou o seu último disco, onde se incluía um dos seus maiores sucessos, "Timor", que se tornaria um verdadeiro hino da resistência timorense e da profunda ligação dos portugueses com a luta do povo maubere.
Hoje, passados estes anos, é difícil destacar uma canção do "Trovante". Cada um fará a sua colectânea, sendo que são tantas as músicas, muitas delas associadas a memórias vividas, que tornam, sem qualquer favor, este como um dos mais importantes grupos da história da música portuguesa, que ao longo da sua carreira evoluiu e atravessou tantas sonoridades, cruzando-se com nomes da várias latitudes, de Cuba ao Brasil, provando que a música não tem fronteiras.
Cada um de nós terá a sua forma de lembrar "Trovante" e Luís Represas. A sua riqueza está verdadeiramente aí, ninguém que os viu ou ouviu lhes ficará indiferente.
Para ilustrar esta crónica escolhi uma canção improvável, "Aerograma" do álbum "Sepes" de 1986, com letra de João Monge e música de João Gil. Não sei por que razão, sempre foi uma das minhas canções preferidas. A voz de Luís Represas pode aqui ser ouvida em todo o seu esplendor. Uma voz única que teve o seu zénite em conjunto com Manuel Faria e João Gil, que para ela compuseram os seus melhores momentos, que levaremos connosco até ao fim dos nossos dias. Como diz a canção "Cansa-se esta escrita, com dois dedos num baraço, assim o quis a desdita, vai um abraço".
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