Gonçalo Pacheco

Crónica 17  (23-08-2026)

A música sempre foi uma forma de aproximar os povos, de diminuir distâncias, de afirmar e preservar identidades culturais. Também sempre se revestiu de uma enorme capacidade de nos dar a conhecer outras tradições, muitas delas alicerçadas em raízes profundas, que através de gerações se vão mantendo, recriando e transformando.
Não sei se haverá muitas formas de arte onde se possam fundir, de forma tão simples e genuína, diferentes linguagens, experiências e latitudes. Ou seja, a música sempre foi, e continuará a ser, uma forma de afirmação mas, ao mesmo tempo, de diluição de diferenças.
Vem tudo isto a propósito da recriação da "Dança das Ciganas" que decorreu em Alegrete aquando das festas em honra de Nossa Senhora da Alegria, e que foi uma manifestação de multiculturalidade e integração de povos de diferentes origens e histórias, tão necessária e urgente nos dias que correm, em que se cavam trincheiras baseadas em estereótipos e preconceitos.
Ao longo da história da Humanidade, a mesma só avançou quando se verificou um esforço conjunto para atingir um determinado objectivo. Nunca avançou quando alguém, ou alguns, pretenderam impor as suas ideias, fazendo tábua rasa da História e dos seus ensinamentos.
Quando entendermos que a nossa maneira de estar no mundo não é a única válida, que todos têm direito à afirmação dos seus princípios e valores, viveremos num ambiente mais saudável e respirável.
Nesse contexto, seguindo a sugestão de apresentar uma música de raiz cigana, escolhi "Ederlezi", na versão de Goran Bregovic, que foi utilizada na banda sonora do filme de Emir Kusturica "O Tempo dos Ciganos". Este filme, considerado uma das grandes obras dos anos 80, deu a merecida exposição internacional a Kusturica, além do prémio de melhor realização no Festival de Cannes de 1989.
"Ederlezi" deve o seu nome ao festival, com o mesmo nome, que celebra a chegada da Primavera e o fim do Inverno, coincidindo com o Dia de São Jorge (6 de Maio) de quem os ciganos dos Balcãs são devotos. Esse dia é passado a cantar e dançar, sendo também tradicional o sacrifício de um cordeiro.
Existem inúmeras versões deste tema, em diferentes línguas, mas tal não impede que se tenha tornado uma das canções mais emblemáticas da população cigana, sobretudo a que é oriunda da antiga Jugoslávia. Tanto Goran Bregovic como Emir Kusturica nasceram em Sarajevo e são o resultado do cruzamento das diferentes regiões que compunham esse país e que deram origem, depois de uma das mais cruéis guerras e horríveis carnificinas, a uma multiplicidade de nações que apenas a força mantinha unidas.
A versão que acompanha o filme é interpretada pela cantora da Macedónia Vaska Jankovska e celebra um novo começo que vem com a Primavera. Também é de um novo começo que todos necessitamos, baseado no respeito pela diversidade e na tolerância. Que esta canção possa servir de inspiração para todos os que anseiam por esse mundo baseado na justiça e no respeito pelo outro.  

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