Gonçalo Pacheco

Crónica 18  (06-09-2026)

" A Gente Não Lê" é uma canção escrita por Carlos Tê para o segundo disco de Rui Veloso, "Fora de Moda", editado em 1982.

A canção aborda um dos maiores problemas com que Portugal se confrontou durante o século XX, constituindo um dos indicadores que testemunhava o nosso atraso em relação aos outros países da Europa: o analfabetismo.

Não querendo aqui estar a apresentar estatísticas, a taxa de analfabetismo, com maior ênfase no sexo feminino, era uma evidência que nos envergonhava e que desmonta a narrativa do passado belo e glorioso. A canção reflecte sobre muito do que era a vida e os horizontes de quem se via confrontado com esta triste realidade.

Rui Veloso foi um dos nomes mais populares da década, tendo o seu primeiro disco "Ar de Rock" sido considerado um dos mais importantes da história da música portuguesa, abrindo as portas ao boom do Rock Português, sendo a canção "Chico Fininho" o porta-estandarte desse movimento que marcou todos os que viveram e cresceram com a música dessa década.

A parceria entre Carlos Tê, autor das letras das grandes canções de Rui Veloso e este, foi responsável por alguns dos grandes êxitos do músico até 1995. Curiosamente, ou talvez não, após a ruptura entre ambos nunca mais Rui Veloso teve um grande disco ou um grande êxito. Hoje, como sabemos, Rui Veloso é um intérprete do seu próprio reportório, não lançando nenhum disco de originais desde 1998.

Segundo palavras de Carlos Tê, o encontro entre ambos ocorreu na segunda metade da década de 70, quando ouviu falar de um rapaz com habilidade para tocar guitarra e que até "tinha uma Gibson preta em casa". À semelhança dos rockers da altura, Rui Veloso não aprendeu música nas academias, toda a sua técnica foi sendo adquirida de forma autodidacta, pondo discos a tocar e sobrepondo os acordes da sua guitarra aos sons gravados, experimentando assim os solos mais difíceis. Foi assim que aprendeu a tocar como B.B. King ou Muddy Waters, o seus ídolos "blues" e que definiram os seus primeiros anos de carreira musical.

Em 1980 formou a "Banda Sonora" com Zé Nabo no baixo e Ramon Galarza na bateria, que conheceu no estúdio, tendo aí começado uma aventura que a todos apanhou de surpresa, pois não se esperava que um disco gravado com poucos recursos alcançasse um êxito tão grande, a ponto de hoje se dividir a música moderna portuguesa num antes e num depois de "Ar de Rock".

"Fora de Moda", como o próprio nome indica, é um regresso às raízes mais "bluesy" de Rui Veloso, sendo hoje um disco injustamente esquecido e que é, na minha opinião um dos seus melhores. Sobre o mesmo escreveu Carlos Tê na capa interior do disco que o nome se deve ao facto de a música popular não ser propriamente um fenómeno de alta-costura onde se movimentam os grandes costureiros de modas e acetatos, e porque não se pretendia estar na vanguarda de nada. Assim sendo, o disco foi feito fora dos padrões industriais ditados pelos ateliers discográficos. Um acto de coragem para um sempre arriscado e difícil segundo disco, pois tinha sido muito mais fácil cavalgar a onda de sucesso do primeiro.

Sendo várias as boas canções do disco, "A Gente Não Lê" destaca-se como uma das melhores que alguma vez Rui Veloso gravou. Aí se pode ouvir, a determinada altura "e do resto entender mal, soletrar assinar em cruz, não ver os vultos furtivos que nos trama por trás da luz".

Passados 44 anos, os vultos furtivos que nos tramam por trás da luz assumem outras abordagens, fazem-se valer de outras formas de analfabetismo, talvez menos evidentes mas igualmente acríticas, despidas de outras sabedorias que, apesar de tudo, acompanhavam a realidade retratada na canção. Porque cada um continua a ouvir os ruídos do mundo e entendê-los a sua maneira. Ou à maneira que nos querem impingir.

OUVIR