Gonçalo Pacheco

Crónica 19  (13-09-2026)

A Sétima Legião é um caso único na chamada música moderna portuguesa. Pela sua originalidade, pela sua qualidade, pelo seu bom gosto, pelas suas referências.

Formada no início da década de 80 por Rodrigo Leão, Nuno Cruz e Pedro Oliveira, eram um grupo de amigos adolescentes estudantes que ensaiavam sem parar, dando concertos nos mais incríveis locais, em condições normalmente muito más.

Terá sido num desses concertos que chamaram a atenção de Miguel Esteves Cardoso, que entretanto fundara a primeira editora verdadeiramente independente portuguesa, a "Fundação Atlântica". Foi do consagrado crítico musical, que vivera em Inglaterra e se tinha tornado uma referência na divulgação de determinadas sonoridades até então desconhecidas em Portugal (Joy Division à cabeça, mas também Durutti Column, Felt) que saiu a letra da sua primeira canção, "Glória", que viria a ser incluída no disco que se destaca nesta crónica.

Nunca nada de semelhante se ouvira em Portugal, numa altura em que abundavam bandas e grupos de todos os estilos e géneros, na maior parte das vezes de duração efémera e qualidade discutível.

Foi essa originalidade que chamou a atenção de Ricardo Camacho, um dos mais brilhantes produtores e músicos portugueses (infelizmente já falecido), que para além de produzir o seu primeiro longa-duração, se veio a tornar membro efectivo do grupo.

E assim chegamos a 1984. Nesse ano, a "Sétima Legião" grava o seu primeiro longa-duração "A um Deus Desconhecido". De repente, toda a crítica musical se questionou donde vinha aquele som e aqueles músicos que faziam uma música que nunca se ouvira em Portugal, tão próxima da linha sonora de Manchester mas, ao mesmo tempo tão original e com ligações óbvias às tradições musicais portuguesas, sobretudo do norte, com a utilização de gaitas-de-foles e percussões.

A sua música incorporava ambiências célticas, correntes étnicas da música popular, guitarras que recordavam Vini Reilly dos Durutti Column e composições que faziam lembrar as grandes canções dos Joy Division. Em vários concertos a "Sétima Legião" interpretou temas do grupo de Ian Curtis, que se havia suicidado em 1980 com apenas 23 anos.

"A um Deus Desconhecido" é um disco de uma beleza única, por vezes sufocante, que ainda hoje é considerado pelos seus antigos membros como o mais autêntico e intemporal. Um disco de uma coerência admirável, que abria as portas de Portugal a uma modernidade que só se conhecia nos grupos que o "Rock em Stock" e o "Som da Frente" da saudosa Rádio Comercial divulgavam. Mas que ao mesmo tempo trazia para essa mesma modernidade sons ancestrais e instrumentos que se julgava ser impossível conciliar. Um disco que conjuga belas canções com alguns temas instrumentais que marcaram a história da música portuguesa (a esse respeito destaca-se "Mar d'Outubro", talvez o instrumental mais belo que se fez em Portugal depois de Carlos Paredes, e que viria a dar o nome ao seu segundo disco).Foi essa originalidade que chamou a atenção da Valentim de Carvalho e que lhes possibilitou, a partir do momento em que assinaram com uma das mais importantes editoras portuguesas, gravar com outras condições e publicar discos que se tornaram referências de várias gerações, com êxitos como "Sete Mares", "Por quem não esqueci" ou "Sem ter quem amar" entre outros.

A importância da Sétima Legião mede-se também pelos projectos que surgiram do seu seio, destacando-se os "Gaiteiros de Lisboa" e, sobretudo "Madredeus".A história mais recente é de algumas aparições episódicas, normalmente para assinalar algumas datas redondas ou homenagens, transformando-se esses momentos em inesquecíveis acontecimentos musicais.

Para ilustrar este disco, escolhi "Porta do Sol", mas como referido anteriormente, aconselha-se a audição do instrumental "Mar d'Outubro". Ninguém dirá que já passaram 42 anos, pois a frescura ainda lá está, aquela que transporta uma obra para a imortalidade. Nunca mais houve outro grupo assim em Portugal.

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