Gonçalo Pacheco
Crónica 20 (20-09-2026)
No final da década de 80 e, sobretudo, durante a década de 90, os "Madredeus" eram o grupo musical português com maior projecção internacional.
Tudo começou em 1986, quando Pedro Ayres de Magalhães (o nome por detrás dos "Heróis do Mar") e Rodrigo Leão (membro da "Sétima Legião") se juntaram para comporem para língua portuguesa, combinando influências da música popular portuguesa com o fado, com a música erudita e com música popular contemporânea. A eles se juntariam Francisco Ribeiro no violoncelo e Gabriel Gomes no acordeão. As primeiras composições começaram a surgir, a sua sonoridade começava a definir-se, mas faltava quem cantasse aquelas canções, que lhes desse um cunho original, credível e adequado.
Por essa altura já ensaiavam na Igreja da Madre de Deus, antiga Igreja de Xabregas, quando se iniciou o processo de audições para selecção de uma voz, feminina, que interpretasse as canções de forma a realçar as palavras, como quem conta uma história e se conjugasse com o formato de música de salão e com os instrumentos acústicos.
Foi nesse contexto que surgiu Teresa Salgueiro, ao que consta a décima quarta pessoa a surgir nesse processo de audições. E foi aí que verdadeiramente tudo se alinhou, passando as canções a ser compostas para explorar ao máximo as características da sua voz. Teresa Salgueiro passou a ser, assim, não apenas a voz, mas também a imagem do grupo.
Seguiu-se o processo de gravação do primeiro disco "Os Dias da Madredeus", em 1987, que decorreu em apenas três dias, com um orçamento reduzido. O disco foi gravado em directo com o grupo a tocar em "ensemble" na Igreja da Madre de Deus, o que conferiu ao disco uma sonoridade profundamente original.
O disco foi um acontecimento no panorama musical português, que não conhecia quem se assemelhasse na sonoridade, na composição e na ambiência que aquele quinteto proporcionava.
Ainda nesse ano, no dia 30 de Novembro, os "Madredeus" apresentam-se pela primeira vez ao vivo, na Aula Magna, fazendo a primeira parte da "Sétima Legião", onde Teresa Salgueiro não conseguia esconder o seu nervosismo, sem saber o que fazer com as mãos (foi tão grande a sua evolução que, mais tarde, seria ela a dominar o palco, com uma firmeza que contrastava com a suposta fragilidade da sua voz e da sua figura).
Estava definido um caminho que, como referi, não tinha paralelo na música portuguesa, levando os críticos de então a debater como se podia catalogar aquele som, a que género musical corresponderia, pois afastava-se das regras do pop, mas também não podia ser considerado de música erudita. O que ninguém duvidada era da portugalidade daquele som, que com o tempo se tornou o maior embaixador da música portuguesa, só encontrando paralelo no reconhecimento internacional de Amália Rodrigues.
Ao longo da década de 90 a formação dos "Madredeus" foi sofrendo alterações, mas isso não impediu que a sua sonoridade se mantivesse e o seu reconhecimento internacional não parasse de crescer. Realizaram tournées por todo o mundo, estiveram em quarenta e um países, gravaram uma banda sonora para Wim Wenders ("Lisbon Story"), estiveram no primeiro lugar no top de vendas de diversos países europeus e, em muitas lojas de discos por essa Europa eram o único nome português que constava do stock das mesmas.
Os "Madredeus" provavam assim que era possível ter uma concepção original da música e ser, ao mesmo tempo, comercial no sentido de ser evidente a sua aceitação por todo o tipo de públicos.
Em 2007 é anunciada a saída de Teresa Salgueiro, cuja voz era o emblema do grupo, o que obrigou a um repensar do mesmo. Pedro Ayres Magalhães e Carlos Maria Trindade decidiram criar um novo "ensemble" a que chamaram "Banda Cósmica", que duraria até 2011. Nesse ano é anunciada uma nova formação, regressando também o nome original, que gravaria o seu último disco de originais em 2015 "Capricho Sentimental".
Desses anos ninguém se lembra, pois os Madredeus tinham-se transformado num grupo de repertório, vivendo das longínquas lembranças dos tempos em que tinham tido o mundo a seus pés.
Um grupo profundamente original, com alguns dos mais belos discos da música portuguesa, que construiu uma sonoridade própria, em que a mestria dos seus elementos encontrava espaço para se evidenciar, sem que com isso caíssem em redundâncias sonoras tão características em grupos onde imperam os virtuosos.
Para ilustrar a crónica, escolhi um tema do primeiro disco "Fado do Mindelo", que não sendo um dos seus temas mais conhecidos é, pelo menos para mim, um dos mais belos. Poucas vezes a música e o silêncio se conjugam tão bem.
OUVIR

