Abílio Amiguinho
Crónica 3 (19-06-2026)
Subo, depois do Pego do Inferno…
Acompanham-me, de novo, e com muita saudade, principalmente pelos companheiros desse tempo que entretanto já partiram, as memórias do pioneiro Projecto Socioeducativo em Meio rural, em que tive o privilégio de participar, nos já distantes anos 80 do século passado. Era o ECO para sublinhar uma intenção e uma estratégia de mudança das práticas educativas e da escola, à medida que procurava mudar a relação com a comunidade e as famílias numa região em manifesta perda social e territorial. Subo, então, fazendo aquele que era o percurso de retorno a Portalegre, depois de andar pelas escolas ainda existentes por terras de Arronches, deixando para trás os ainda próximos Mosteiros. As perdas demográficas que a cada ano obrigavam ao fecho de escolas, revelavam-se na pouca agricultura de subsistência que se fazia na margem esquerda da Ribeira de Arronches. Os mais velhos, resilientes, persistiam no seu labor ancestral, mas desdizendo da sorte do território e de si próprios: sem futuro para ele já que o deles seria inexoravelmente curto. Uma paisagem marcada pois, pelas parcelas de terreno de minifúndio, e divisórias ou muros que as delimitam, em que as pequenas hortas, ou cultivo de cereais confinado a poucos hectares, ou mesmo abaixo de um, compaginavam com o pastoreio de animais. Mas sob os sobreiros que bordejavam o caminho, e outra vegetação associada, com pinheiros lá mais para trás, a medida que a terra se alevanta para mais uma montanha, já sobressai a vista do azinhal que a margem direita do curso de água nos proporciona, como marca que se impõe, assinalando claramente como dali para a frente é a planície que define o território.
Mas, daqui, o que resta de mais marcante na paisagem, é a forma como a Ribeira ancestralmente se tornou o centro ou o fio condutor da vida das gentes que foram povoando as suas margens até à nascente. Hortas, Levadas ou Moinhos de Água e Azenhas que chegaram a ser mais de duzentos… Só um deles – o do Solas - ainda resiste à erosão do tempo e às avassaladoras técnicas de moagem do grão de cereal e outros três são hoje espaços de alojamento local rural. O primeiro ali muito próximo de Vale de Cavalos, usufrui da levada que se perde no tempo e nos usos que lhe foram dados para mover o engenho movimentando as pás ou caçambas do rodízio com a velocidade transformada em energia cinética para acionar toda a engrenagem que teima em manter a mais artesanal de peças e mecanismos. Uma forma engenhosa para fazer cair da moega, com a devida parcimónia, o grão a moer, e a escoar o já moído na farinha pretendida, amontoando-se a um ritmo suave e calmo que contrasta com o som - não ruído - característico do movimentar das mós e da restante engrenagem. E mais adaptações criativas para separar a farinha do farelo; ou crivos também acionados de modo inventivo para proporcionar a fineza da farinha ao gosto dos clientes, dado que ali ainda se fazem encomendas.
O moleiro convidar-vos-á a observar a levada, o modo como a controla e regula, a ribeira, a sua horta e outras que dali se veem e muita vegetação autóctone.
Imaginamos pelo que vimos o que podíamos ter visto para trás. Seja o que existia no Moinho dos Cubos, hoje transformado num paradisíaco local de descanso, como Casa de Campo ou no Moinho da Palma hoje Casa de Hóspedes, já depois do Pego do Inferno mas à vista dele.
Tinha para mim que era larga a distância da longínqua e breve memória dos quase duzentos moinhos de águas e azenhas da Ribeira de Arronches, como me constou, não sei se no exagero próprio do povo, da que perdura, também muito apagada, em alguns e ainda mais da que está ligeiramente documentada. E, quase sempre de forma indireta, através da informação e da publicidade aos novos usos dos espaços e casario reabilitado, como alojamento local ou respostas de turismo rural. Então recorro, como várias vezes, às fontes orais, a testemunhos diretos ou mediados por amigos.
Recorro à informação preciosa do Sr. Mouquinho, nas memórias dos seus 88 com nomes e anexins, dos moleiros e dos moinhos de que se fazia as suas vidas, e dos seus, complementada por hortas, animais e demais amanho da terra. Começou por referir um outro nos três aferidos para além do do Solas, que o seu irmão Manuel "Resga" chegou a ter à renda depois de ter a seu cargo e labor o dos Cubos. Mais abaixo havia o Moinho da Quinta e a seguir os dos Cubos que afinal eram dois, o do Joaquim Coita, hoje pouso de descanso, e propriedade de um dos seus filhos, e outro, que também foi do Manuel "Resga", já referido, e também avô do amigo Sérgio Palma, a que estou agradecido por estas informações. A jusante havia os dois Moinhos do Monte e mais abaixo ainda os das Nogueiras, também dois, ao que consta. Certamente aproveitando o vertiginoso embalo das águas que desde sempre se precipitaram no Pego do Inferno, ao qual quase regresso, ao sabor desta oralidade, neste percurso, ainda houve o Moinho do Zopa, o Moinho do Tonho Baptista e o Moinho do Palma. E mais o Moinho do Feiteira e o Moinho da Rocha, já à entrada dos Mosteiros, para depois do mais ou menos doce vagar das águas, no seu leito, ladeado pelos azinhais da planície, encerrar o périplo com o moinho que, ao que parece, havia à entrada de Arronches. Seria o do Almo, mas depois de mais meia dúzia, que açudes ou o simples movimentar da corrente, ampliada por cursos de água, afluentes da Ribeira garantiam o funcionamento. Recorro à carta miliar sobre o sítio e dou-me conta de como esta oralidade só interessava a quem mapeava os sítios para os devidos efeitos, ou seja, para a estratégia e operações militares. A carta é muito contida nestas referências aos Moinhos que foram fonte de vida para os que asseguraram o seu funcionamento com o seu labor, estendido por muitas horas do dia e da noite, com denodo e brio, ainda assim, e os que ali encontravam a farinha ou os farelos para as necessidades do seu difícil viver, que fazia deles matérias primas imprescindíveis para uma alimentação que tinha no pão e afins a sua base. E, por alguma razão, ali se menciona o Moinho do Serra, logo por cima do do Rocha e a Azenha nova, junto ao Monte do respetivo nome, poucos metros por cima deste, permitindo a inferência de uma engrenagem acionada por roda vertical.
Imagino o bulício Ribeira abaixo, Ribeira acima, pelas veredas e caminhos de acesso, especialmente em datas festivas como a Páscoa ou a "Festa de flores" para confecionar a exigente bolaria da quadra, a requerer moagens apropriadas, de grão mais ou menos moído finamente, expurgados a preceito do farelo. Fica por saber se com eles se faziam as "perrumas" adicionadas à alimentação dos cães dos Montes.
É neste ponto que me contagia a nostalgia dos Alegretenses. Era com Alegrete, vila antes concelho e agora freguesia que a Ribeira mexia. Era ela que moldava as suas vidas, como elemento definidor daquele ecossistema. Não quero tomar partido, e muito menos envolver-me em querelas antigas. Ser a Ribeira de Alegrete, dado que era do concelho, era reduzir a questão a voláteis decisões administrativas. De Alegrete sim, por onde a freguesia se estruturou com gente (re) configurando a paisagem, em muitos dos seus lugares, sítios e aldeias, no seu quotidiano e abnegado labor. De Arronches quando mal chegada a vila logo se funde no Caia? Cuidado, apesar de tudo. Descobri não há muito, que muitos dos Moinhos, dos hipotéticos duzentos, como refiro mais atrás, eram entre os Mosteiros, um pouco mais abaixo do Barulho (que parece não coincidirem no espaço nas designações antigas) e a vila de Arronches, o que também deve ter contribuído bastante, para implicar na vida das gentes de Arronches, mesmo quando a grande propriedade já dominava e a Serra já tinha descambado para a planície plena!
Agora vou retomar a subida da Ribeira, até ao Vale Lourenço, na expetativa de um olhar sobre a Azenha de São Mamede, também já espaço de descanso e de desfrute logo abaixo, da primeira cascata com o Pico de São Mamede . Até lá terei muito para ver, esteja mais ou menos próximo do curso de água, entre amieiros, choupos ou salgueiros, negros ou chorões. Dos negros – Salix atrocinerea – se faziam os cestos ditos de verga, ou os galritos, uma forma engenhosa de pescar bogas, barbos ou bordalos nos pegos da Ribeira. Suspeito que por ali haja ainda saramugo e pardelhas que, noutros tempos, os caneiros, outro instrumento de pesca improvisada, permitiam pescar sem extinguir, ao contrário do que atualmente sucede com as espécies carnívoras que foram subindo, ao longo dos anos desde a Barragem do Caia.
