Gonçalo Pacheco
Crónica 3 (20-04-2026)
1971, o tal ano sacramental da história da música portuguesa, que mais uma vez aqui é revisitado. No caso da crónica de hoje, viajamos até "Os Sobreviventes", o primeiro disco de Sérgio Godinho, também ele gravado nos estúdios do Château d'Herouville, e à primeira canção desse disco que, 55 anos após a sua edição, mantém uma frescura e uma actualidade que, nalguns aspectos pensaríamos não ser possível nos dias de hoje.
Sérgio Godinho, nascido no Porto em 1945, é hoje um respeitado octogenário, que mantém uma regular actividade, dividida entre a escrita de canções, romances e livros de poesia, para além de continuar a dar imensos concertos ao vivo, reinterpretando e reinventando as inesquecíveis canções do seu vasto cancioneiro.
Ao longo da sua carreira publicou 18 álbuns de originais, 5 discos ao vivo e 7 colectâneas. São, também, inúmeras as colaborações, nomeadamente com os Clã, Jorge Palma, com José Mário Branco e Fausto no magnífico "Três Cantos ao Vivo" ou com um leque de convidados de luxo no disco "Irmão do Meio" (a título de exemplo refiro Caetano Veloso, Carlos do Carmo e Camané, Milton Nascimento e Tito Paris).
Desde 1965 e até 1974, quando regressou a Portugal após o 25 de Abril, viveu na Suíça, onde estudou Psicologia, tendo tido com professor Jean Piaget. Por essa altura recusou participar na Guerra Colonial, sendo dado como refractário. Já em França viveu o Maio de 68 de forma bastante intensa. Foi aí que mergulhou definitivamente no mundo da música, tendo participado durante dois anos na produção francesa do musical "Hair". Foi também em Paris que conheceu e privou com José Mário Branco e Luís Cília. Aquando do 25 de Abril vivia na cidade canadiana de Vancouver, onde integrou diversas companhias de teatro.
Em 1971, em Paris, colabora com José Mário Branco no seu primeiro disco (protagonista da crónica anterior) e grava "Os Sobreviventes" disco que, como não podia deixar de ser, foi alvo da censura, tendo sido proibido, depois autorizado e, novamente, proibido. Isso não o impediu de ser considerado o melhor disco do ano, recebendo o prémio Bordalo, entregue pela Casa da Imprensa. Vivia-se então a "Primavera Marcelista" que manifestava a sua incapacidade de se adaptar aos novos ventos da História, permanecendo numa encruzilhada entre a manutenção da Guerra Colonial e uma abertura política que nunca se materializou.
A canção que acompanha esta crónica "Que Força é Essa" (a primeira do disco) é um relato das duras condições de vida do operariado em Portugal e dos emigrantes portugueses em França que, a troco de pouco dinheiro, trabalhavam o dia inteiro, construindo as cidades para os outros. Nada que não se verifique nos dias de hoje. Apenas mudaram as latitudes e as proveniências.
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