Hermenegildo Correia
Crónica 3 (17-07-2026)
Terceira crónica sobre alegretenses notáveisIsaura Correia Santos, nasceu em Alegrete em 1914, vindo a falecer no Porto em 1989, "(…) tornando-se conhecida como autora de livros para a infância" (Humberto Pinho da Silva – 'Isaura Correia Santos. Uma Grande Senhora do Alentejo'. In Notícias de Viseu, 21 de janeiro de 2019). Aliás, a obra 'O Senhor Sabe Tudo Contou…', publicada em 1946, foi premiada com o galardão Maria Amália Vaz de Carvalho pelo Secretariado Nacional de Informação (SNI) no mesmo ano e tornando-se uma referência no panorama literário nacional (in Wikipédia, sobre 'Isaura Correia Santos', consultado em 25 de junho de 2026). O sucesso desta obra levou a autora a criar a coleção 'O Senhor Sabe Tudo'. Eis alguns títulos:
- 'O Regresso do Senhor Sabe Tudo' (1948);
- 'O Senhor Sabe Tudo em Évora' (1949);
- 'O Senhor Sabe Tudo em Lisboa' (1951);
- 'O Senhor Sabe Tudo na América do Norte' (1962).
Nestas obras Isaura Correia Santos divulgava o património cultural daqueles territórios, assim como valores educativos.
Mas Isaura Correia Santos escreveu também para adultos. Eis alguns exemplos:
- 'O Quinto Mandamento' (1952). Um romance dedicado ao seu marido, o pintor Abel Santos;
- 'E a Charneca Sorriu' (1954);
- 'O Melhor Poema da Minha Vida' (1956).
O Alentejo está bem presente nos seus livros. Quando entrevistada por Dora Correia Silva (sua amiga das tertúlias semanais, que Isaura Correia Santos organizava aos sábados na sua casa do Porto), afirma que "nos meus contos e novelas falo frequentemente da minha terra e da minha província, louvando o comportamento honesto, laborioso, pacifista do povo alentejano. Por exemplo, no meu romance 'E a Charneca Sorriu…', refiro-me à reforma agrária e às cooperativas" (in Mariana Branco – 'Mulheres Escritoras'. Acedido em 25 de junho de 2026)
.Isaura Correia Santos foi também jornalista, tendo colaborado com inúmeros jornais, de âmbito nacional, como o Comércio do Porto, República, Jornal de Notícias e o Primeiro de Janeiro. E também de âmbito local, como O Povo de Aveiro, Notícias de Guimarães, Jornal de Elvas, Correio de Portalegre, etc. Nos anos 70 do século passado dirigiu o semanário Voz do Ave (in blog Ruas Com História, 14 de março de 2018).
A sua carreira jornalística começou no Voz Portalegrense, onde publicou o seu primeiro artigo, intitulado O Nosso Alentejo, em 16 de setembro de 1939. Este artigo surgiu assinado com o pseudónimo 'Uma Alentejana', designação que utilizou na maioria da sua produção jornalística (in Wikipédia s/ 'Isaura Correia Santos', acedido em 26 de junho de 2026).
Nos seus artigos, abordava temas sociais, culturais, políticos. "Certo dia, Isaura Correia Santos, indignada com certa articulista, que escrevera 'As mães portuguesas oferecem os filhos, para defenderem a Pátria', resolveu publicar uma crónica, afirmando: que era mãe e portuguesa, e não 'oferecia' o filho para ir para a guerra "(colonial) (Humberto Pinho da Silva – 'Isaura Correia Santos. Uma Grande Senhora do Alentejo', in Notícias de Viseu, 21 de janeiro de 2019).
Isaura Correia Santos foi também jornalista na BBC, em Londres, para onde se mudou na década de 1940, integrando a secção portuguesa dos serviços de redação desta instituição. Até à década de 1970, continuou a desempenhar um papel relevante na elaboração dos textos divulgados pelo jornal, atuando paralelamente como conferencista, primeiro em Londres e posteriormente em Portugal, no Instituto Britânico do Porto. O processo de escrita era um tema recorrente das suas conferências (in Wikipédia, s/ 'Isaura Correia Santos', acedido em 26 de junho de 2026).
Isaura Correia Santos foi também tradutora. Dois exemplos: Os Emigrantes de Mayford, de Robert N. Webb (1968) e Alberto Schweitzer, de Jo Manton (1960) (in Wikipédia, s/ 'Isaura Correia Santos', acedido em 26 de junho de 2026).
A atividade jornalística e literária de Isaura Correia Santos foi reconhecida nos EUA, mais precisamente no Estado do Texas, tendo-lhe sido atribuída pelo governador deste Estado o título de cidadã honorária do Estado do Texas (Humberto Pinho da Silva – 'Isaura Correia Santos. Uma Grande Senhora do Alentejo'. In Notícias de Viseu, 21 de janeiro de 2019.
Como referimos acima, o Alentejo e Alegrete estavam frequentemente presentes na vida e na obra de Isaura Correia Santos. Um exemplo: uma carta escrita pelo Capitão João António Rodrigues (outro alegretense notável), ao Diretor do jornal A Rabeca (de Portalegre). Nesta carta, o Capitão João António Rodrigues informa sobre a constituição de uma comissão de alegretenses (onde ele também se incluía) "(…) com o fim de iniciar um movimento em prol de Alegrete. Essa comissão é presidida pela distinta escritora, jornalista e conferencista D. Isaura Correia Santos" (in A Rabeca, 7 de maio de 1953).
O programa desta comissão é vasto "(…) e o seu cumprimento redundará totalmente em benefício da nossa dama – A Nossa Terra" (in Ibidem).
Uma das prioridades referida na carta, é a de "arranjar donativos e novos sócios para a sua centenária filarmónica que está (…) atravessando uma aguda crise financeira - a tal ponto que não pode manter um regente!" (in Ibidem). Refere-se ainda nesta carta que a Presidente da comissão de alegretenses, Isaura Correia Santos, aproveitará os jornais alentejanos e não alentejanos onde colabora, para chamar a atenção para os problemas com que se debate Alegrete e reivindicar apoios para a sua solução (in Ibidem).
A comissão de alegretenses obteve resultados. Disto nos dá conta, um artigo do Capitão João António Rodrigues no jornal A Rabeca. Neste artigo, informa-se que "foi autorizada a carreira de camionagem entre Alegrete – Portalegre, às quartas feiras e sábados (…). Será inaugurada no dia 15 de Agosto de 1953 (se a estrada Portalegre-Alegrete for melhorada)" (in A Rabeca, 15 de Julho de 1953). A carreira entre Portalegre-Alegrete-Portalegre tem início a 2 de setembro de 1953, como atesta o artigo de João Rodrigues Branco: "Inicia-se hoje a carreira de camionetas, às quartas feiras e sábados, entre Portalegre e Alegrete, com o seguinte horário. Partidas de Portalegre às 6,00 e 13,30. Partidas de Alegrete às 6,40 e às 14,10" (in A Rabeca, 2 de Setembro de 1953). O artigo termina fazendo votos, "para que os melhoramentos para Alegrete – que bem necessários são – não fiquem por aqui e que em breve possamos assistir à inauguração da iluminação eléctrica, pois nos consta estar já fechado o respectivo contracto" (in Ibidem).
Isaura Correia Santos reconhece e valoriza o trabalho da Comissão de alegretenses em prol de Alegrete, mas sugere que as mudanças deviam ter outro ritmo. Com efeito, num artigo publicado no jornal Brados do Alentejo, regozija-se com o lançamento da primeira pedra para a construção de um hospital em Nisa, para sublinhar a lentidão das mudanças em Alegrete, sobretudo devido à falta de poderes e de apoios materiais. Diz ela:
"Ultimamente, o Capitão João António Rodrigues, meu conterrâneo e parente, tem trabalhado arduamente em prol da nossa terra natal – esse Alegrete português (…) O seu entusiasmo é vibrante, e faz planos, sonha, sonha…fazendo-nos sonhar também! Mas os planos, por falta de poderes, por falta de capitais, não passam de planos…e os sonhos não passam de sonhos. Perante isto e mais, fico triste, muito triste tanto quanto contente com os progressos de Nisa (…)" (in Brados do Alentejo, 31 de Março de 1954).
Os contributos de Isaura Correia Santos em prol do Alentejo e de Alegrete foram reconhecidos pelos alegretenses, que em votação democrática, decidiram atribuir o seu nome à principal avenida da vila, ainda em vida da escritora e jornalista. "A inauguração da placa com o meu nome deu-se a 15 de Agosto (de 1976, segundo testemunho de Olímpia Velez) dia maior de Alegrete" (Entrevista de Dora Correia Silva a Isaura Correia Santos. In Documento cedido por António Delicado).
Mais recentemente, em 14 de março de 2024, a Escola Básica de Alegrete e a Junta de Freguesia homenagearam também Isaura Correia Santos. Homenagem que ficou marcada por várias iniciativas:
"- Foi descerrada uma placa na casa onde Isaura Correia Santos viveu na vila;
- De seguida, foi inaugurada na Escola Básica de Alegrete a biblioteca Isaura Correia Santos, a qual surge por iniciativa dos professores e que contou com o apoio do Centro Comunitário de Nossa Senhora de Fátima através da oferta de alguns livros;
- E foi ainda inaugurada a exposição 'Vida e Obra de Isaura Correia Santos', com o espólio cedido pela Sociedade Recreativa Musical Alegretense" (in Jornal Alto Alentejo, 15 de março de 2024). Esta homenagem, na qual participaram muitos alegretenses, "contou com a presença do professor António Delicado, que deu a conhecer aos presentes a vida e obra da autora, da professora Olímpia Velez, que teve a oportunidade de privar de perto com a escrita da autora e partilhou memórias que guarda desse tempo, e com o educador Francisco Pacheco que falou da importância de incutir nas crianças o conhecimento das tradições da sua terra e da obra de Isaura Correia Santos" (in Ibidem).
Hermenegildo Correia
16 de julho de 2026
