Luísa Vaz Tavares

Crónica 3 (31-07-2026)

Oração dos Contrabandistas


É de crer que o contrabando na nossa freguesia se tenha praticado desde que há fronteiras definidas entre Portugal e Espanha. Até por comparação com estudos feitos em territórios semelhantes. Ora num sentido, ora noutro, consoante as necessidades, adensando-se sempre nas épocas de conflitos.

No entanto, no que a nós diz respeito, as memórias que a oralidade e mesmo um testemunho físico guardaram não vão aquém da madrugada de 25 de dezembro de 1925, quando o contrabandista Saragoça terá morrido às balas do capricho de um guarda fiscal, ali para os lados do Fraguil. Conta-se que o dito guarda, do posto da Pedreira, irritado por o seu cabo o ter escalado para trabalhar em noite de Natal, terá dito "hoje, se me aparecer alguém à frente, mato-o". E o testemunho lá está, no meio da serra, em forma de cruz de ferro, cravada numa rocha, com a inscrição "Saragoça – 25/12/1925".

Precisamente, a zona do Fraguil era uma das mais trilhadas por aqueles que do contrabando faziam vida. Entre os Besteiros e a Pão de Trigo era a dimensão da linha que, dando o salto, se ficava diretamente do lado de lá da raia, partilhada pelos dois povos. Área de vegetação densa, com declives acentuados no terreno e muitas proeminências rochosas, prestava-se idealmente ao jogo de gato e rato que era a caça dos guardas aos contrabandistas, muitas vezes, os dois lados da mesma família ou círculo de afetos, porque o sentir não se reconhece nas leis impostas.

Às vezes, depois de muitos quilómetros calcorreados, com dezenas de quilos às costas, avistavam lá na linha de passagem, os guardas, com a avidez de os apanhar, ou que apenas queriam fazer o seu trabalho. E o mais sensato era recuar. Mas voltar ao ponto de partida, isso não.E a Nossa Senhora da Lapa ali tão perto!

Naquele tempo, a ermida era uma porta sempre aberta para o culto à Senhora e para o abrigo de todos, os ermitões moravam de casas pegadas. Com vários cantos e recantos, tanto dentro como fora, era o local seguro para esconder a carga, que era assim encomendada:

Senhora da Lapa, Senhora minha,

Guarda-me a mim e à minha carguinha!