Gonçalo Pacheco

Crónica 21  (27-09-2026)

Esta foi uma semana triste para a música portuguesa. Desapareceu um dos seus maiores, reconhecido por diferentes gerações, pela sua genialidade, tanto ao nível da composição musical como pelas letras que se tornaram parte da história do cancioneiro português. Como alguém escreveu, há sempre uma frase, uma canção de Jorge Palma que parece que foi escrita para nós. Nestes dias abundaram os textos e mensagens sobre si e a sua obra, elaborados por gente muito mais abalizada, normalmente acompanhados pelas suas canções mais emblemáticas, pelo que nada poderia acrescentar ao que muito, justamente, foi escrito e homenageou Jorge Palma. Talvez daqui a uns tempos, com maior distanciamento, voltemos à sua obra.

Na década de 70 do século passado, nem sempre em simultâneo, predominaram três "géneros" na música popular (pop/rock). O chamado "Disco Sound", onde sobressaía a música de dança, normalmente de gosto duvidoso, que fazia o sucesso nas discotecas. Felizmente durou pouco e hoje é apenas uma memória longínqua para aqueles que assim o pretendam. Bem mais interessante foi a música produzida, sobretudo, a partir da segunda metade da década, tendo origem no "Punk" e que desembocou na chamada "New Wave", muitas das vezes recorrendo apenas ao formato clássico da guitarra, baixo e bateria, para além da voz. Muitos são os grupos que surgiram neste alfobre, algures entre os Estados Unidos e Inglaterra.

O terceiro género teve o seu apogeu na primeira metade da década, apesar de alguns dos seus principais nomes ainda por aí andarem, num mercado revivalista que continua a ter os seus seguidores. Refiro-me ao que se designou por "Rock Progressivo", e grupos com os "Yes", "Genesis" (sobretudo na fase com Peter Gabriel) e "Van Der Graaf Generator" foram alguns dos seus porta-estandartes.

Foi a estes grupos, mas também aos Pink Floyd e Moody Blues que o autor da canção e do disco hoje em destaque foi buscar inspiração, compondo um álbum conceptual tão ao gosto da altura (1978). Por essa altura predominava a ficção científica como uma marca do imaginário de então, marcada por algum catastrofismo e receio da deriva nuclear que poderia destruir o planeta Terra (alguém se lembra do "Espaço 1999"?).José Cid, músico conhecido principalmente pelas suas participações no Festival da Canção, tinha no seu historial a criação do "Quarteto 1111" um grupo visionário e que deixou marcas bem sólidas nos finais da década de 60 e muitos problemas com a censura (o seu primeiro álbum foi mandado retirar do mercado pelo conteúdo de algumas letras) e era considerado como alguém capaz de compor canções bastante comerciais mas, aos mesmo tempo, obras de uma riqueza e densidade musical surpreendentes.

É neste contexto que se insere a produção e gravação do disco "10000 anos depois entre Vénus e Marte", um disco conceptual sobre a destruição do planeta, onde a lama azul avança e a humanidade já não pode respirar, onde uma nuvem de cimento faz com que nunca mais se veja o sol. Nasce assim a necessidade dos seus habitantes se despedirem do Planta Terra (se conseguires fugir, foge na tua nave espacial). O herói da história abandona o planeta, acompanhado por uma amiga, levando-a na nave que comanda até ao Planeta Mellotron, o planeta fantástico.

Até que, milhares de anos depois, o planeta "entre Vénus e Marte" regressa ao inicial idílico em que nasceu a aventura humana, pronto para recomeçar outra civilização. Assim, os astronautas regressam ao planeta que deixaram para trás, partindo do zero, reencontrando o ar, o mar, a terra, o sol, o amor e a paz.

Este argumento ingénuo não impediu que este disco ganhasse o estatuto de culto, aparecendo invariavelmente nas listas dos melhores discos de sempre de rock progressivo.

De tal forma é reconhecido, que atingiu valores estratosféricos em leilões e vendas online, sobretudo no mercado japonês. Foi posteriormente reeditado por uma editora norte-americana especializada neste género.

É, apesar de tudo, um disco que encerra uma mensagem de esperança e de redenção, composto maioritariamente por José Cid, com o auxílio de Zé Nabo, Ramon Galarza e Mike Sargeant.

Para ilustrar um disco que merece ser ouvido na íntegra, escolhi "Fuga para o Espaço" quando o nosso herói viaja pelo espaço. É inevitável que nalguns momentos não nos venha à memória David Bowie.

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