Gonçalo Pacheco
Crónica 22 (04-10-2026)
A RTP optou por convidar Carlos do Carmo a interpretar todos as canções, sendo os temas seleccionados entre todos os que se apresentaram a concurso. Os compositores concorreram sob pseudónimo, e na altura da selecção, o júri não sabia quem tinha composto as canções escolhidas. A escolha da canção vencedora foi da inteira responsabilidade dos espectadores, que votavam através dos cupões publicados nos jornais e revistas.
Do leque de canções a concurso, algumas delas vieram a tornar-se clássicos da música portuguesa e da carreira de Carlos do Carmo, como por exemplo "Estrela da Tarde", "Flor de Verde Pinho" (a canção vencedora) e "No teu Poema". O conjunto das oito canções viria a dar origem à edição do disco "Uma canção para a Europa".
Esta última, com letra e música de José Luís Tinoco, arquitecto, artista plástico, músico multi-instrumentista, compositor e letrista falecido em Abril deste ano, ganhou lugar entre as grandes canções de Carlos do Carmo, que procurava por essa altura libertar-se da imagem de um "simples" fadista.
Desde cedo que Carlos do Carmo assumira como suas principais referências Frank Sinatra, Jacques Brel e Dorival Caymmi, pelo que nunca se circunscreveu ao fado, apesar de ter nascido e crescido no ambiente das casas de fado. Carlos do Carmo era filho da fadista Lucília do Carmo, nascida em Portalegre, e com o falecimento do pai em 1962 viu-se na contingência de ter de assumir a gerência do "Faia", que se viria a tornar uma das maiores referências das casas de fado lisboetas.
Essa versatilidade permitiu-lhe cantar com inúmeros nomes das mais diversas áreas musicais, como Elis Regina, António Vitorino d'Almeida e apadrinhar toda uma nova geração de fadistas como Camané, Ana Moura, Cristina Branco, entre tantos outros.
No ano seguinte à participação no Festival da Canção, Carlos do Carmo grava um dos seus mais importantes e reconhecidos discos "Um homem na Cidade", com letras de Ary dos Santos. O disco, profundamente inovador para a época, contou com composições musicais tão diversas de músicos oriundos de diversas linguagens, da música erudita ao jazz e ao pop-rock (José Luís Tinoco, Paulo de Carvalho, António Vitorino de Almeida, Fernando Tordo, Mário Moniz Pereira entre outros). O disco celebra a Lisboa castiça, dos objectos que resistem ao tempo, dos ofícios que vão desaparecendo, dos bairros ancestrais e das suas ruas. Hoje é unanimemente considerado um dos grandes discos da música portuguesa.
A presente crónica não pretende fazer uma resenha da carreira de Carlos do Carmo, que pela sua dimensão, temporal e qualitativa, não caberia no espaço desta. Foram inúmeras as condecorações, prémios e distinções das mais variadas espécies que Carlos do Carmo recebeu em vida, que não se ficaram pelas fronteiras portuguesas, pois recebeu em Espanha o prestigiado "Prémio Goya" e ainda o "Grammy Latino" na categoria de Excelência Musical, entregue apenas aos artistas pelo conjunto da obra que produziram ao longo da sua carreira e não devido ao êxito que lograram com determinada canção ou álbum.
Carlos do Carmo viria a falecer no primeiro dia de Janeiro de 2021, com 81 anos. A sua obra foi reconhecida por artistas dos mais variados quadrantes, alguns dos quais ficaram a dever a sua carreira ao apadrinhamento e carinho o cantor lhes dedicou em algum momento. Também o seu empenhamento político foi reconhecido, pois sobretudo depois do 25 de Abril foram várias as causas que abraçou, envolvendo-se no apoio a candidaturas que considerava progressistas.
Escolher uma canção de Carlos do Carmo não é tarefa fácil, pois são tantas e tão ricas as que constam do seu cancioneiro. Não sei porquê, sempre considerei "No teu Poema", que ficou apenas no terceiro lugar no festival de 1976, como uma das minhas preferidas. Está ali toda a pujança vocal de Carlos do Carmo, suportada por um arranjo musical que se adequa na perfeição. Uma canção para a eternidade.

