Gonçalo Pacheco

Crónica 23  (11-10-2026)

Camané, nome artístico de Carlos Manuel Moutinho Paiva dos Santos, é inegavelmente um dos nomes mais proeminentes do fado, sendo reconhecido, não apenas entre os seus pares, mas também por músicos das mais diversas latitudes musicais, talvez porque nunca se tenha circunscrito ao género musical que o tornou um dos mais destacados cantores portugueses.


Em Camané destaca-se não apenas a sua voz, de uma limpidez e clareza luminosas, como a sua forma de interpretar, em que o valor da palavra é elevado a um patamar que poucos alcançam.

A sua aproximação ao fado, contada pelo próprio, deveu-se ao facto de durante o processo de recuperação de uma doença na infância, ter necessidade de ficar um mês em casa. Nesse período ouviu inúmeras vezes os três discos que o pai tinha que não eram de fado: Beatles, Frank Sinatra e Charles Aznavour. Mas depois de tantas audições lá teve de começar a ouvir os discos de fado de Alfredo Marceneiro, Amália e Carlos do Carmo, entre outros. No início achou aquilo muito esquisito, mas depois descobriu que conseguia cantar aquelas canções.

Ainda criança canta pela primeira vez em público num restaurante de Alcântara, quando se dirigiu aos músicos e pediu para cantar um fado de Fernando Maurício. A partir daí começou a cantar em algumas casas de fado. Aos onze anos participa pela primeira vez na "Grande Noite do Fado", numa altura em que não havia competição separada para os mais novos. Dois anos depois, em 1979, volta a participar, obtendo então a vitória e é convidado a gravar um disco produzido por António Chaínho.

Mais tarde, após alguns anos a trabalhar no Arsenal do Alfeite a calafetar barcos, fruto de um percurso escolar tumultuoso que não lhe permitiu concluir o nono ano e cumprido o serviço militar, inicia uma carreira profissional cantando nas mais prestigiadas casas de fado de Lisboa, o que significou, para si, uma verdadeira escola.

Depois de ter passado pelo Teatro Politeama, onde integrou o elenco da peça "Maldita Cocaína" de Filipe Lá Féria, em 1995 dá-se um encontro que viria a revelar-se decisivo para a sua carreira, projectando-a para um outro nível. Esse encontro foi com José Mário Branco, que se tornou o seu produtor e director musical. Nesse percurso trabalha também com Manuela de Freitas, companheira de José Mário Branco e autora das letras de algumas das mais famosas canções de Camané.

Camané reconhece em José Mário Branco a pessoa mais importante no seu percurso musical, ajudando-o a ter presente a palavra, o registo emocional de cada poema na música e, acima de tudo, a definir a sua sonoridade dentro do fado. Assim entre 1995 e 2017, ao longo de oito álbuns de estúdio, José Mário Branco foi o principal obreiro da linguagem fadista de Camané, construída com o próprio, mas também com os músicos José Manuel Neto, Carlos Manuel Proença e Carlos Bica.

A discografia de Camané é extensa e diversificada, contando colaborações com os Xutos e Pontapés ou a participação no disco dos Humanos, com Manuela Azevedo e David Fonseca, entre muitos outros projectos, o que o projectou para outros palcos e outros públicos.

Escolher uma música numa obra tão prolífica não é tarefa fácil. Mas há um disco em que, na minha modesta opinião, Camané atinge a sua plenitude. Esse disco é "Sempre de Mim" de 2008. Aí a sua voz está suficientemente amadurecida para interpretar poemas de Fernando Pessoa, David Mourão-Ferreira, Sérgio Godinho e Jacinto Lucas Pires, para além da habitual colaboração de Manuela de Freitas.

Há, no entanto, uma canção que destaca das demais, tendo-se tornado uma das que habitualmente é exigida nos seus espectáculos, com música de Alain Oulman e letra de Pedro Homem de Melo: "Sei de um Rio". Uma canção que fica para a eternidade, e onde a mão de José Mário Branco é evidente, depurando-a de tudo o que possa ser dispensável. No final, fica a sua voz, absolutamente única