Gonçalo Pacheco
Crónica 24 (18-10-2026)
Por essa altura proliferavam grupos das mais variadas orientações e tendências da esquerda e extrema-esquerda, com particular incidência nas divergências entre o Partido Comunista e grupos e partidos de esquerda mais radical, dos quais se destacava a União Democrática Popular.
O mentor do GAC foi José Mário Branco, que se assumia na altura como maoísta e militante da UDP. Ao que consta terá sido na casa de Fausto que o grupo passa a ter a designação que transportaria até ao seu fim, passando a envolver-se nas movimentações populares que se multiplicavam por todo o lado, desde greves a ocupações e manifestações. Por essa altura realizavam inúmeras actuações, gratuitas, em fábricas, herdades, quarteis, bairros populares, assumindo-se como "militantes, agitadores e propagandistas políticos".
Em 1975 começam a gravar as suas canções, editando oito singles, sendo que quatro deles serão reeditados no seu primeiro longa-duração "A Cantiga é uma Arma", cujo tema título se tornou um hino dos "tempos da brasa". Nesse disco convivem canções inspiradas nos relatos individuais dos cantores, nas experiências por si vividas, mas também nas "topical songs" de agitação e propaganda, em ligação estreita com as lutas "da classe operária e do povo trabalhador".
Em 1976 é editado "Pois Canté", talvez o melhor e mais representativo disco do GAC. Este disco abriu o caminho para a integração da música tradicional num contexto mais socializado, aproveitando a formação em etnomusicologia de alguns dos seus membros, podendo por essa via ser considerado um dos primeiros discos de "fusão". O disco foi gravado entre Fevereiro e Março de 1976 e virá a ser nomeado disco do ano por parte do jornal "A Capital" A prestigiada, e saudosa, revista "O Mundo da Canção", no balanço feito no final desse ano. Considera-o um "disco muito importante para o panorama da canção revolucionária portuguesa, pois algumas das cantigas, pelo seu retrato completo de estados e situações concretas, são susceptíveis de perdurar durante muito tempo".
De facto, a temática de muitas das canções deste disco pode ser transportada para o presente, desde a crise da habitação à discriminação das mulheres nos seus postos de trabalho ou à tristeza de quem tem de emigrar.
O disco é também inovador na utilização de instrumentos até aí pouco ouvidos nos discos portugueses, como a gaita-de-foles, e pelos arranjos musicais, ou não estivéssemos a falar de José Mário Branco ou João Loio.
Seriam ainda editados mais dois discos "…E Vira Bom" de 1977 e "Ronda da Alegria" de 1978. Por essa altura o GAC conta com mais de mil sessões em Portugal e nos estrangeiro, muitas das quais não remuneradas. Os seus membros vão-se dispersando por diversos projectos, porque ninguém conseguia viver apenas da música do grupo, até porque a distribuição dos seus discos decorria de forma paralela, através das organizações das colectividades, dos sindicatos e da própria UDP. Como referiu José Mário Branco, "ficámos sem o dinheiro, nunca mais vinha, era uma indisciplina. Tudo faliu por esse lado."
Em 1979, por dificuldades financeiras inultrapassáveis, o GAC, que chegou a ter cerca de 80 associados, extingue-se em definitivo. No entanto, muitos dos seus membros continuaram ligados à música em grupos com os "Gaiteiros de Lisboa" "Cramol" ou no "Coro da Gulbenkian". João Loio e, sobretudo, José Mário Branco, tiveram uma carreira a solo por todos reconhecida.
A canção escolhida para ilustrar o percurso deste grupo chama-se "Maria", pertence ao disco "Pois Canté", e sendo uma canção bastante linear na sua concepção, é tocante na sua simplicidade e na forma desassombrada com que aborda a situação de profunda desigualdade a que as mulheres estavam, (será que em muitos casos não estarão ainda ?) sujeitas.

