Gonçalo Pacheco
Crónica 25 (25-10-2026)
Para tal contribuiu a multiplicidade de músicos que, de forma efectiva ou com colaborações fugazes, participaram nos seus sete discos editados entre 1975 e 1984. Apenas para se ter uma ideia, podemos referir Carlos Zíngaro, Luís Linhares, Armindo Neves, Cândida Soares (mais tarde conhecida como Cândida Branca Flor), Gabriela Schaaf, Né Ladeiras, Rão Kyao, Ti Chitas ou Jerry Marotta (baterista de Peter Gabriel) entre muitos outros.
No entanto, há um fio condutor em toda a sua obra, que é a presença de António Pinho (autor da maioria das letras), oriundo da Filarmónica Fraude e Nuno Rodrigues (responsável pelas músicas), fundador da banda Música Novarum.
O encontro dos dois músicos ocorreu em 1973, tendo iniciado aí a escrita dos temas que viriam a constar do primeiro álbum da banda, "Dos benefício de um vendido no reino dos Bonifácios", que viria a ser editado apenas em 1975.
Ao longo dos seus discos é nítida a fusão da música etnográfica com o Pop, o vanguardismo e a experimentação, a música de cariz mais urbano e até o Rock. Este conjunto de influências conduziu à criação de um universo musical muito próprio, com uma estética que contrastava com o a ideologia dominante do canto de intervenção e das mensagens políticas que a ele estavam associadas. Só assim foi possível conjugar a tradição musical portuguesa com novas formas de fazer e dizer com o recurso a harmonias vocais riquíssimas, o aproveitamento inovador das percussões rurais ou na utilização inovadora de um violoncelo electrificado.
Dessa estética musical não pode ser dissociada a riqueza dos textos de António Pinho que conjugava uma veia satírica com a musicalidade dos jogos fonéticos.
Da sua obra não é justo destacar apenas um ou dois discos, pois se alguns se revelaram mais ricos do ponto de vista musical ("Coisas do Arco da Velha" e "Hoje há Conquilhas, amanhã não sabemos"), outros destacaram-se pela aceitação popular, constituindo os seus maiores sucessos ("No Jardim da Celeste" e "Também Eu").
No entanto, "Coisas do Arco da Velha", gravado e editado em 1976 e mais tarde reeditado em 1994, representa um marco e um passo decisivo para a banda, pois integra algumas das suas canções mais brilhantes e onde as harmonias e o equilíbrio musical são notáveis. Convém não esquecer que estávamos em 1976, quando as canções se transformavam em manifestos políticos e nem sempre a componente musical se tornava o aspecto mais importante de muitas delas.
Ouvir este disco nos dias de hoje, quando completa cinquenta anos redondos, é muito mais que uma viagem ao passado, pois pode ser um exercício de (re)descoberta de um grupo que esteve sempre à frente do seu tempo, diferente de todos os outros que existiram em Portugal.
Para ilustrar esta crónica foi difícil seleccionar uma canção, pois este não é um disco de hits ou sucessos, antes um disco em que se destaca a sua homogeneidade no que à qualidade diz respeito. Mas após mais uma audição do mesmo, resolvi escolher "Canto de amor e trabalho", tema tradicional de Trás-os-Montes. Toda uma nova de interpretação (onde a voz feminina é de Cândida Soares, num registo totalmente diferente daquele que teria como Cândida Branca Flor) se pode aqui ouvir. Uma canção inclassificável.

