Gonçalo Pacheco

Crónica 26  (01-11-2026)

A Brigada Victor Jara é um caso único de longevidade na música de raiz tradicional portuguesa. Foi formada em 1975, na cidade de Coimbra, por um grupo de amigos que se juntavam de vez em quando para tocar, entre outras coisas, música latino-americana, nomeadamente chilena. Participavam nas campanhas de dinamização cultural do MFA ou de trabalho voluntário, bem ao espírito revolucionário e interventivo da época.


O seu nome resulta de uma homenagem ao cantor chileno Victor Jara, assassinado pelo regime de Pinochet logo após o golpe militar de 1973. Vistor Jara era, à data da sua morte, um dos mais respeitados nomes da música de intervenção com profundas raízes na tradição musical andina.

A música tradicional não foi, como se vê, a primeira paragem do grupo. Ela só chegou mais tarde, segundo conta Jorge Seabra, um dos elementos fundadores, quando participaram, na Beira Baixa, numa série de espectáculos no âmbito das campanhas de alfabetização. Aí depararam-se com um cancioneiro infindável, o que os levou a recompor o grupo com uma formação nova, já voltada para a música tradicional.

Foi a partir daí que foram seleccionando uma série de canções de origem popular que, depois de devidamente trabalhadas estavam prontas para ser gravadas. A lógica passava por dar à música tradicional uma roupagem diferente daquela que havia imperado durante décadas através dos ranchos folclóricos. Mas que pretendia, também, não repetir os discos e as recolhas de Michel Giacometti, apesar de as suas músicas lhe serem fiéis em termos instrumentais.

A opção passou por desenvolver estruturas musicais próprias da música rural das várias regiões do território, com arranjos que obedeciam a uma estética muito própria.

É nesse contexto que em 1977 é gravado o seu primeiro disco "Eito Fora", com o sub-título "Cantares Regionais". O disco foi gravado em duas noites, em horas mortas quando o estúdio da Arnaldo Trindade não era utilizado. Ouvido hoje, passados quase 50 anos, e comparado com a sonoridade dos seus discos posteriores, pode soar algo artesanal e menos elaborado. Contavam, no entanto, já com mais de duzentas actuações pelo país.

Mas o seu contributo para o avanço da música portuguesa de raiz tradicional é inegável, provando que havia um caminho alternativo às sonoridades que a conotavam com o regime do Estado Novo.

No alinhamento do disco contavam-se canções de praticamente todas as regiões de Portugal, numa viagem que permitia descobrir a riqueza e diversidade da música portuguesa, praticamente desconhecida do grande público. Não se trata, ainda assim, de um trabalho de etnomusicologia, não existindo a preocupação de utilizar apenas os instrumentos populares de cada região.

Na contracapa do disco pode ler-se: "Eito fora é fadiga, canseira de seguir sempre seara fora, a eito, eito fora é certeza de quem ajuda, à espera de poder subir o degrau que falta". À Brigada Victor Jara deve-se muito do esforço que custou subir o primeiro degrau.

No texto inicial que acompanha o disco, a Brigada diz ao que vem, quando refere que não ignoram que "o folclore que sai do seu lugar próprio, que são os cantos e as aldeias e esquece o homem na relação diária com o trabalho campestre, corre o risco de não passar de um produto banal, uma mercadoria que faz as delícias dos turistas, avinhados ao ritmo dos ferrinhos e da concertina".

Depois desse disco fundador, seguiram-se outros, com uma periodicidade desigual, que contou com diversos músicos nessa trajectória. Ainda hoje a Brigada Victor Jara vai fazendo algumas actuações, espaçadas no tempo, mas com a qualidade que desde o primeiro disco imprimiram à sua obra.

A canção escolhida para ilustrar esta crónica teria de ser, obrigatoriamente, "Marião", um original de Trás-os-Montes que se imortalizou na voz de Né Ladeiras, a cantora coimbrã que participou nos dois primeiros discos da Brigada "Eito Fora" e "Tamborileiro".

Ainda hoje, e passados tantos anos, continua a ser a "Versão".