Abílio Amiguinho
Crónica 4 (04-09-2026)
Dos nomes que o povo dá aos sítios…
E ando entre Vales, como Vale de Negrinhos e Monte vale de São Mamede e continuo subindo, na margem esquerda da Ribeira. Dou com uma amostra do que foi esta zona quando, numa curva, encontro, disposto à fala de ambos, o Sr. Marques, como eu um "rapaz" de setenta anos. Estamos nos Montarecos, agora nas margens da Ribeira de Souto Queimado. Ele dá feno de Ervas às suas cabras e eu vim interrompê-lo. Mas é exatamente por aí que começa a conversa. Mantém as cabras serranas de porte médio, pintadinhas sobre fundo entre o creme e branco, ou de vermelho carregado. As pintas mudam de cor consoante o fundo. Estão-me na memória de quando há quase 60 anos o meu saudoso pai por aqui as veio buscar para o nosso pequeno pegulhal, pouco mais de meia dúzia, lá pela planície, nas margens do Caia.
A nossa conversa foi parar a um tema que faz hoje a lamúria dos mais desencantados com as regiões de baixa densidade, as mesmas que, quase em oposição, fazem com que outros acreditem nas suas potencialidades e recursos. Diferentemente de se lamentar com a dureza da vida de outros tempos ou mais atual, que fizeram com que muitos tivessem partido, com um brilho nos olhos fala-me dos que estão a chegar e a retornar, à procura de qualidade de vida e de bem estar em contacto com a natureza que por aqui atrai e mobiliza, mas principalmente porque, por ali, comprar ou arrendar habitação para residir é incomparavelmente mais acessível.
Da paisagem, Souto Queimado acima, em documentos expandidos para visitantes, em folhetos ou on line, é o Barranco da Caleira que constitui ponto de referência, e, logo a seguir a fonte com o mesmo nome. De águas límpidas e abundantes quase por todo o ano, entre outras águas que correm, cristalinas e audíveis por cima de fundos rochosos, pela Ribeira de Souto Queimado, assim me o afirma sem tibiezas o Sr. Marques. "Então como se havia de chamar a Ribeira se ela vem de lá?" Pergunta retoricamente. Vem de lá e, metros à frente, desfazer-se-á na Ribeira de Arronches, como desde quando esta orografia terminou o seu desenho. Pouco importa que o mapa a assinale como Ribeira da Caleira.
"Dizem que isto está ao abandono", interpelo, parafraseando os folhetos. Não é bem assim, em conformidade com o expresso atrás, e no mesmo tom animado, sentencia o meu interlocutor. E retenho o que eu próprio observei, até onde subi do outeiro que descamba do fim do Vale Lourenço, para este do Souto Queimado ou do Barranco da Caleira. Hortas e Quintas, com gado ovino e caprino pastando em cercados para ele reservados, são comuns aos dois lados, e parece que só um deles assim se caracteriza. Se mais se subir é silêncio que anotamos, que pode rimar com isolamento, mas que alguém não desperdiçou quando lá bem mais para cima, onde se consegue chegar de automóvel, nomeadamente a comercial do meu interlocutor, como me afiançou, alguém reabilitou um nicho ecológico, em nome da biodiversidade e da sustentabilidade.
Suspeito que para contrariar a densidade de pinheiros e eucaliptos que ali foi plantada e a que os folhetos de passeios aludem quando se passa dele para o Vale Lourenço. Registo o lamento para o despautério que eliminou, ou fez definhar, em nome de um suposto "petróleo verde" a chamada fagossilva, a floresta mista de perenófilas e caduçófilas, em especial carvalhos e castanheiros – que dão nome ao sítio de Souto, embora Queimado e o povo lá saberá porquê. Era o toque ancestral da humanização da paisagem, de substituição da milenar cobertura vegetal das pós-glaciações. O que por ali me toca, à vista, ou que presumo lá bem no fundo por onde corre a ribeira, é o que persiste naquela humidade de espécies ripícolas como, amieiros, choupos, freixos e salgueiros, também característicos daquela muito longa transformação florestal. Nas ravinas adjacentes ainda há lugar para o coberto vegetal de matos e arbustos, resultante da substituição do arbóreo primitivo, como urzes , tojos, carquejas, giestas e estevas. Embora no início da época de floração – princípios de março – a Urze Roxa já resplandece o que capto pela objetiva da máquina fotográfica. Darei a volta, pensei na altura, pelo Alto dos Forninhos, vindo de cima, para, no topo daqueles barrancos, ir à procura da planta que devora moscas que alguém me refere já ali ter visto em grande quantidade. E lá voltei uns tempos depois, em coerência com a minha persistência nesse procurar por conhecer, observar e saber. De nada me valeu dado que a primavera foi madrasta e não favoreceu a espécie.
E a Caleira que dá nome ao Pico e ao Barranco? Do calcário a cozer que de lá se retirava, na pedreira, no forno ou fornos que por lá haveria? Estou a presumir à falta de informação, mas marcante, como se vê, na designação daqueles lugares e da paisagem. Assim sendo a Serra retoma-se ou replica-se em afloramentos calcários dolomíticos e solos argilosos – observáveis em pequenas peneplanícies por aqui – desde a Escusa, com passagem pela Serra da Selada, até cá!
Mas, se do Alto dos Forninhos sair a direito para sul pelo meio da floresta e desafiando barrancos e penhas, como a das Fontainhas ou a do José Alegria, aterrarei em baixo primeiro no Sítio do Ninho do Açor e logo depois na Quinta com o mesmo nome. O Ribeiro que ganhou igual designação corre para o outro lado, dado que por ali a Ribeira que serpenteia, diz o mapa, é a Ribeira de São Pedro. Desconfiado, andei pela vila e na porta semi-aberta com alguém a espreitar e à minha pergunta com o saber que a idade lhe permitia, respondeu-me que aquela é sim a Ribeira das Quintas. Tinha acabado de lá estar e percebo, dado que eram muitas as Quintas que por lá havia, com uma ou duas ainda em atividade. Mais o açude construído com o aproveitamento dos xistos e quartzitos das margens, para suster a água a aproveitar para a rega. Naquele dia era em Cascata que a água de lá saía.
E assim vai até à Fonte em Baixo, de águas cristalinas correndo e de grandes sombras de Choupos Negros. Ali desemboquei com os meninos da Escola da vila, em visita de reconhecimento da flora local, como verdadeiros cientistas despertando interessados na sua observação e pesquisa.
Entre as muitas plantas que foram encontrando a certa altura uma das meninas acercou-se com um raminho do conhecido rosmaninho. Logo um deles falou do seu uso das fogueiras de São João, como lhe havia contado a sua avó. Lá lhes fui falando do nome científico que as taxonomias em voga lhe atribuem. Mas com uma particularidade: por ali, ao contrário do que acontece em quase toda a Serra a espécie dominante é a Lavandula stoechas e não a Lavandula pedunculata, distinção que gostaram de ficar a saber, até com gáudio por esta especificidade.
Tal como quase comecei vou terminar com uma memória. Provavelmente num regato ou ribeirinho afluente da Ribeira das Quintas ou de São Pedro, como se preferir, numas férias de Natal, ali por Vale Monteiro, em pleno inverno, mergulhei inadvertidamente num pequeno pego. Os ovos de girinos, entrelaçados, numa pequena teia eram bem apelativos para minha sede leitura do grande livro aberto que era a natureza. Tanto me aproximei que cai dentro de água. O pai não gostou nada do descuido e pôs a roupa que me despiu a secar ao sol. Valeu a abrigada de uma pedra ainda que ao sol mortiço do inverno para que também enxugasse enquanto tiritava de frio. Mas aprendi a lição!
Um pedido final: quem mais souber sobre sítios e nomes que o faça, comentando.
Na foto com a minha mão, à esquerda a Lavandula pedunculata, dominante na Serra, e à direita a Lavandula stoechas, mais frequente por Alegrete. Às duas o povo chama de rosmaninho.
