Gonçalo Pacheco

Crónica 4  (27-04-2026)

Fausto Bordalo Dias, conhecido no mundo da música apenas por Fausto, nasceu a bordo do navio Pátria, em 1948, numa viagem entre Portugal e Angola, embora o registo do seu nascimento tenha sido feito em Vila Franca das Naves, Trancoso.


Talvez este facto tenha contribuído, juntamente com os anos de adolescência vividos em Angola, para a construção da sua sólida formação musical. Ou então é apenas a sua genialidade. Certo é que desde cedo, com apenas 22 anos, se destacou, tendo lançado o seu primeiro disco "Fausto", hoje um disco quase impossível de encontrar.

O 25 de Abril deu-lhe o impulso que necessitava, e à semelhança de outros cantautores, envolveu-se profundamente nos anos quentes que se seguiram, editando dois discos profundamente comprometidos com aqueles tempos. Mas a solidez das composições, a delicadeza dos arranjos e a riqueza das sonoridades já se destacavam.

Até 1982 já editara algumas canções que perduraram ao longo dos anos, destacando-se uma das primeiras canções de consciência ecológica, aquando da possível construção de uma central nuclear em Ferrel, Peniche ("Se tu fores ver o mar- Rosalinda").

1982 é um ano chave, não só para a sua carreira, mas para a história da música portuguesa. Nesse ano Fausto lança "Por este Rio Acima", uma obra-prima absoluta qualquer que seja o prisma pelo qual se analise. Como escreveu o saudoso jornalista Fernando Magalhães, este disco faz a síntese da música tradicional portuguesa com a modernidade. Mas é também um disco onde se projecta o futuro e não se tem medo de experimentar novas formas e novas sonoridades. E é, ainda, uma lição de História, que a partir da "Peregrinação" de Fernão Mendes Pinto, nos convida a reflectir sobre nós, aquilo que são as misérias e as glórias portuguesas, as aventuras e os desastres que nos tornaram naquilo que somos, o cruzamento de povos, terras, cheiros, vícios e virtudes. O disco é uma viagem pelos mares, mas também como Fausto canta, "por cima dos pensamentos".O disco é, ainda, o primeiro de uma trilogia dedicada às viagens dos portugueses por todos os cantos do mundo, seguindo-se "Crónicas da Terra Ardente" em 1994 (baseado na "História Trágico-Marítima") e "Em Busca das Montanhas Azuis" de 2011, sobre as viagens dos portugueses através de África.

A maior dificuldade surge quando se tem de escolher uma canção que ilustre tão notável disco. É um sacrilégio seleccionar uma de entre as 16 que compõem este duplo álbum, cuja beleza começa logo pela capa de José Brandão. Este texto é, sobretudo, um convite a que se oiça mais uma vez este disco, ou se parta à sua descoberta. Mas como não se deve escrever sobre canções sem o respectivo acompanhamento, a escolha recaiu sobre "Como um sonho acordado". Mas repito o conselho, oiçam o disco todo, de uma ponta à outra. Poucas vezes se escreveu, compôs e cantou Portugal de forma tão superlativa.

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