Luísa Vaz Tavares

Crónica 4 (16-10-2026)

LENDA DA TORRE DO RELÓGIO

No imaginário das lendas alentejanas, há uma figura comum a muitas delas, que nos contos ditos ao lume, dentro da chaminé, nas escuras noites de inverno, criava uma carga dramática e emocional capaz de deixar o ambiente com uma densidade de cortar à faca. Então se contados pelos mais velhos, que era normalmente quem o fazia, com uma certa entoação na voz, ainda mais o mistério tomava conta dos espíritos, que se sobressaltavam mais e mais, à medida que a narrativa avançava.

Preambulando entre o animal e o humano, era nas noites de lua cheia que essa figura aparecia para assombrar as almas mais incautas. Ora, sendo a torre do relógio um dos monumentos emblemáticos da vila, foi esse o local escolhido, por tal criatura, para dar a sua lição. Porque todas essas lendas tinham implícita alguma aprendizagem.

E contava-se assim:

Numa noite escura de inverno, ia um homem a caminhar pelo Largo da Praça, quando viu um burro e disse, dando-lhe uma palmada:

– Que anda este burro por aqui a fazer?

E o burro perguntou-lhe:– Quer ir para baixo ou para cima?

Como o homem queria ir para a Caganita, respondeu:

– Quero ir para cima.– Monte-se – disse o burro.

O homem montou-se e o burro começou a crescer, a crescer, sem parar. Já ia a uma grande altura, mas o homem, muito assustado, não dizia nada. Talvez fosse apenas uma partida e quando chegasse ao cimo o animal o trouxesse para baixo, mas ao mesmo tempo observava que aquele burro era estranho. E o medo ia tomando conta dele. Até que chegou ao cimo da torre do relógio e já sem aguentar mais, gritou:

– Eu quero ir para baixo, eu quero ir para baixo!

Então, o burro foi baixando, baixando, até que ficou rente ao chão e disse ao homem:

– Desça!

O homem desceu, todo a tremer de medo e o burro disse-lhe, em jeito de lição:

– Daqui para a frente, segue o seu caminho e não se mete com quem está. Quem está, está; quem vai, vai.

O burro era um lobisomem.