Gonçalo Pacheco

Crónica 5  (04-05-2026)

Com Adriano Correia de Oliveira termino o capítulo dedicado aos cinco músicos que, em meu entender, constituem o Olimpo da música portuguesa.


Adriano Correia de Oliveira nasceu no Porto em 1942, tendo morrido na sequência de uma hemorragia esofágica, em Avintes, nos braços da sua mãe, com apenas 40 anos.

É em Coimbra, para onde vai estudar em 1959, que se dedica aos seus dois principais interesses, o desporto e a música. No primeiro caso, o Voleibol, chegou a ser campeão nacional e a jogar pela selecção portuguesa. Já em relação à música, a relação foi mais duradoura e prolongou-se ao longo de toda a sua vida.

Começou por participar em serenatas, tocando guitarra e, como referiu numa entrevista, gargarejava algumas canções. Nesse ambiente de tertúlias nocturnas conhece António Portugal, destacado guitarrista de fados e cruza-se pela primeira vez com Manuel Alegre. É aí, também, que conhece Rui Pato, que por essa altura já acompanhava José Afonso.

A sua voz, de uma limpidez e singularidade absolutamente únicas, chama a atenção de Arnaldo Trindade, editor da Orfeu, que editará, em 1960, o seu primeiro disco.

Manuel Alegre tornar-se-á o poeta mais cantado por Adriano, sendo imortalizada essa relação na "Trova do Vento que Passa". Reza a lenda que numa noite fria de Coimbra, no centro da Praça da República, Manuel Alegre ergueu a sua voz declamando os versos "Mesmo na noite mais triste/ Em tempos de servidão/ Há sempre alguém que resiste/ Há sempre alguém que diz não". Adriano terá decretado em resposta "Mesmo que não fiquem mais versos, esses versos vão durar para sempre". A Trova, gravada em 1963, rapidamente foi adoptada pelos estudantes como hino de resistência. Dela diria José Niza, o outro nome fundamental para a carreira de Adriano, que foi "A Grândola antes da Grândola". Depois desse encontro, Adriano gravaria inúmeros poemas do poeta, dedicando-lhe um disco na íntegra "O Canto e as Armas".

O outro nome decisivo na carreira de Adriano, e responsável pelo seu amadurecimento musical, foi José Niza, com quem Adriano havia privado em Coimbra. É ele o compositor de "Cantaremos" e "Gente de Aqui e de Agora" talvez o seu disco mais elaborado, também ele editado no mágico ano de 1971.

A sua obra ganhou um novo fôlego depois do 25 de Abril, onde correu o país de uma ponta à outra, cantando nas circunstâncias mais extraordinárias e adversas, no entanto coerentes com quem acreditava no papel social da canção. Nessa altura cantou com José Afonso e Vitorino, tocou com Carlos Paredes e Júlio Pereira, foi produzido por Fausto.

Considerava-se, sobretudo, um cantor de poetas, contando-se na sua discografia gravações de António Gedeão, Assis Pacheco, Manuel da Fonseca entre muitos outros.

A canção escolhida para ilustrar este texto é, no entanto, um poema de uma poetisa galega do século XIX, Rosalía de Castro, que José Niza musicou para o disco "Cantaremos" de 1970. "Cantar de Emigração" relata as dificuldades e condicionalismos que levaram ao aumento da emigração na Galiza naqueles tempos. Mas poderia ser um retrato, fiel e dramático, do Portugal dos anos 60 e 70 do século XX, quando tantos milhares saíam do país, fosse por razões económicas, próprias de um país miserável, fosse pelos jovens que fugiam à incorporação militar e à Guerra Colonial. Uma belíssima canção, que mereceu diversas versões, nomeadamente do grupo galego "Fuxan os Ventos".

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