Gonçalo Pacheco

Crónica 6  (10-05-2026)

Os "Vai de Roda" foram um dos mais singulares e originais projectos da música portuguesa das duas últimas décadas do século passado, apesar de contarem apenas com três discos editados.


Surgidos em finais de 1978, no início da década de 80 tornaram-se uma cooperativa étnico-cultural que para além da recolha e investigação passava também pela edição de textos e pela construção de instrumentos. Em 1983 editaram o seu primeiro disco, "Vai de Roda", onde introduziram a sanfona, instrumento que havia caído em desuso no instrumentário tradicional português. Este disco, que fugia à matriz dos grupos de música tradicional, com recurso a sonoridades resultantes de uma pesquisa pelos sons da Idade Média e Renascimento, deixava adivinhar uma evolução que seria materializada na sua segunda obra "Terreiro das Bruxas".

Seria, no entanto, com o seu terceiro e último disco editado em 1996, "Polas Ondas", que o grupo atingiria o seu zénite. Hoje é considerado um dos mais notáveis discos de folk português, fundindo diversas sonoridades que vão da música medieval portuguesa à Galiza, recorrendo para isso a um sem número de instrumentos que dão a este disco uma identidade absolutamente única. Nele se ouvem búzios, tin whistles, braguesas, berimbaus adufes, gaitas de foles, violinos e ukuleles entre muitos outros instrumentos, alguns pouco ortodoxos como potes cerâmicos e canas. Este disco produzido, arranjado e dirigido musicalmente por Tentúgal, o grande mentor do grupo, veio a ter o devido reconhecimento com a atribuição do Prémio José Afonso para o melhor disco de música portuguesa em 1997.

O disco é uma viagem dividida em quatro etapas, por terras de Lumieiras, de Vento Verde, de Urze e de Sal. Nele se ouvem as ondas e os murmúrios dos bosques, os jograis e os trovadores, o vento, os celtas e a sua magia.

Também nele se ouve a Galiza, a mais portuguesa das regiões espanholas, porque as fronteiras apenas existem para aqueles que as aceitam. É precisamente uma voz galega a que ouvimos na canção escolhida para ilustrar este disco, Uxía, dona de uma muito respeitável carreira, com inúmeras ligações a músicos portugueses.

A "A Roupa do Marinheiro" é uma cantiga tradicional portuguesa, frequentemente associada ao folclore minhoto, mas que também se ouve no Alentejo. Nela se descreve que a roupa do marinheiro é lavada no mar alto, local da labuta do marinheiro. Existem muitas interpretações e variações desta canção. Nenhuma se aproxima desta, onde se prova que a música é, de facto, uma arte superlativa. Ver menos

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