Gonçalo Pacheco

Crónica 7  (17-05-2026)

Ao iniciar um pequeno ciclo dedicado a vozes femininas portuguesas, a escolha primeira teria de ser, obrigatoriamente, Amália Rodrigues, a voz, não só do fado, mas da canção portuguesa.


Sobre Amália já tudo se escreveu e disse, pelo que este texto não incidirá sobre a sua carreira ou sobre a sua vida. Ao contrário daquilo que dela quiseram fazer crer, sempre foi uma voz independente, que não se colou (ou não deixou que lhe colassem) a etiquetas, rótulos ou ideologias.

Amália quebrou inúmeras barreiras, dentro e fora de Portugal, tendo sido a mais internacional e aclamada artista portuguesa, esgotando as mais prestigiadas salas de espectáculos em vários continentes.

A canção que aqui se apresenta, "Com que Voz" pode ser encontrada no álbum homónimo de 1970. Este disco, que hoje é considerado o protótipo do clássico álbum de fado, foi na altura muito polémico, porque se considerava uma heresia cantar Camões e uma falta de respeito musicar os seus poemas. Sobre esse tema, Amália respondeu que Camões era um grande fadista, que não havia nada mais português e nada mais verdadeiramente fado que Camões. Para Amália, um poeta era para ser cantado, porque isso era o sintoma que não fizera a sua obra para ficar numa biblioteca.

Na obra de Amália, com particular destaque neste disco, sobressai o papel de Alain Oulman, com quem a artista já trabalhava desde 1962. O compositor luso-francês, que Amália considerava a sua alma gémea, foi determinante para que os discos atingissem um nível de profundidade e maturidade absolutamente únicos.

Para que esta obra entrasse directamente para a lista das obras-primas da música portuguesa também muito contribuiu a guitarra portuguesa de Fontes Rocha, que Amália considerou o melhor acompanhamento que alguma vez teve. Aliás, o disco contou apenas com a guitarra portuguesa e a viola de Pedro Leal, num regresso aos registos iniciais de Amália.

O disco "Com que Voz" foi uma verdadeira pedrada no charco do marasmo musical em que o fado se encontrava, trazendo para o seu universo poetas como Alexandre O'Neill, Manuel Alegre, Cecília Meireles, David Mourão-Ferreira ou Ary dos Santos. Nenhum destes nomes pode ser acusado de estar associado ao regime de então.

Hoje, passados 56 anos, continua lá a força única da voz, a pureza das composições, num registo tão impressivo, que parece impossível ter sido gravado em apenas duas noites. Por vezes os astros alinham-se.