Gonçalo Pacheco

Crónica 8  (24-05-2026)

A crónica de hoje tem implícito um convite, que justifica que esta seja feita neste dia. Gisela João estará hoje em Portalegre, para um concerto nas Festas da Cidade. Será, na minha opinião, o momento alto das festividades, apesar de não ser a primeira vez que nos visita.


Gisela João, que tem quatro discos publicados, é um nome destacado na nova música portuguesa, tendo ultrapassado há muito as barreiras do fado, onde começou e ganhou notoriedade. São inúmeras as colaborações com músicos dos mais diversos géneros musicais tendo, no entanto, um critério bastante "apertado" nessa selecção.

Tal como muitos outros nomes, começou pelas casas de fado, mas desde cedo se destacou pela sua voz grave e poderosa e no cuidado posto nas palavras e na selecção dos poemas e poetas cantados. Também nunca aderiu aos maneirismos, privilegiando sempre a autenticidade.

O fado foi a sua porta de entrada e onde ganhou o estatuto que hoje tem. Mas a sua inquietação levou-a a procurar outros caminhos e sonoridades, tendo cantado Leonard Cohen, Nick Cave ou Violeta Parra, por exemplo, em diversos espectáculos. Hoje, considera-se "apenas" cantora, tendo referido numa entrevista que quando canta é o único momento da vida em sente que se está a conseguir explicar direito às pessoas, como é que sente a vida, quem é que na realidade é.

De facto, os seus concertos são profundamente originais, onde a sua origem minhota se evidencia, na espontaneidade, na pronúncia, na entrega em cada canção, como se todo o mundo dependesse disso.

Em 2025 editou "Inquieta", referindo na altura a urgência de cuidar da Liberdade, (assim mesmo com maiúscula), de a cantar, e para tal recorreu a quem sempre sobre ela escreveu e a cantou, José Afonso, Sérgio Godinho, José Mário Branco, José Niza ou José Gomes Ferreira, por exemplo."Inquieta" é um disco portentoso, onde Gisela João consegue apropriar-se de canções intemporais, transformando-as em suas sem, no entanto, as descaracterizar. Foi justamente considerado um dos melhores discos de 2025. Nos tempos que correm, sentiu que era um espírito de missão voltar a dar a conhecer as palavras que, mesmo escritas noutro tempo, fazem todo o sentido quando se olha para o mundo à nossa volta.

A canção escolhida é "Vejam Bem", um original de José Afonso, do álbum "Cantares do Andarilho" de 1968. Gisela João conseguiu a proeza de tornar esta canção sua, também assim mostrando que as grandes canções podem ter várias roupagens. E logo à noite vamos vê-la e, sobretudo, ouvi-la. Portugal tem muito poucas vozes deste quilate. Ver menos