Gonçalo Pacheco

Crónica 9  (31-05-2026)

Cristina Branco é, na minha opinião, uma das grandes cantoras portuguesas. Esta afirmação baseia-se na beleza da sua voz, mas também no ecletismo da sua carreira e na forma como tem interpretado autores de diferentes gerações, desde Camões a Lobo Antunes, de José Afonso a Maria Teresa Horta, de Vinícius de Moraes a Vasco Graça Moura entre muitos outros.

Numa carreira de cerca de 30 anos, com quase duas dezenas de discos publicados, já recebeu vários prémios, desde o Prix Choc da revista "Le Monde de La Musique", à Sociedade Portuguesa de Autores ou o Prémio José Afonso, para o seu último lançamento "Mulheres de Abril" dedicado à obra de José Afonso e às suas canções sobre o universo feminino.

Foi, no entanto, na Holanda que gravou em 1997 o seu primeiro disco "Cristina Branco in Holland", que se tornou um enorme sucesso naquele país, onde teve o merecido reconhecimento muito antes de o conquistar em Portugal. Nos anos seguintes esgotava salas de espectáculos por toda a Europa enquanto em Portugal era olhada com alguma desconfiança por fugir aos padrões puristas que se exigiam às cantoras de fado.

Cristina Branco nunca quis ficar enclausurada nessa categoria, como em nenhuma outra, conforme se pode comprovar na audição da sua discografia, aproximando-se de sonoridades tão diversas como o Jazz, o Tango ou a Bossa Nova.

O seu reconhecimento é feito pelos seus pares, tendo escrito propositadamente para si nomes como Sérgio Godinho, José Mário Branco, Mário Laginha ou Amélia Muge.

Relativamente aos músicos com quem já tocou, em estúdio ou ao vivo, a lista é de tal forma extensa que seria fastidioso estar aqui a enumerá-la.

Cristina Branco é um autêntico tesouro que deve ser preservado, pois não se encontram muitas vozes com esta limpidez e pureza, com esta sensibilidade e paixão. Merecia que em Portugal essa qualidade fosse tão reconhecida como é pelos palcos europeus e americanos.

Escolher uma canção sua é uma tarefa muito complicada. Assim, fui ter à que me agarrou desde a primeira vez que a ouvi, "Sete Pedaços de Vento", do álbum "Ulisses" de 2005. São 3 minutos e 22 segundos de absoluto encantamento.