Ana Lúcia Parente
Crónica 10 (08-10-2026)
"Sinto-me bem, por isso não preciso de fazer exames.
"Esta é uma ideia muito comum. No entanto, é igualmente verdade que algumas doenças podem desenvolver-se durante algum tempo sem causar sintomas. É precisamente aqui que entram os rastreios: procurar doenças ou alterações relacionadas com estas antes que os sintomas surjam.
Outubro é o mês de sensibilização para o cancro da mama, pelo que é uma boa oportunidade para falarmos não só do respetivo rastreio, mas também dos restantes rastreios oncológicos organizados em Portugal.
Mas, afinal, o que é um rastreio?
Trata-se da aplicação de um teste ou exame a pessoas sem sintomas, para identificar precocemente uma doença específica ou alterações relacionadas.
Há, no entanto, uma distinção importante: o rastreio não é o mesmo que o diagnóstico.
Um resultado alterado num rastreio não significa, necessariamente, a existência de cancro. Pode significar que serão necessários outros exames para esclarecer o resultado, o qual poderá conduzir a um diagnóstico de cancro ou revelar alterações precursoras da doença, que poderão ser tratadas antes de evoluírem para um estado maligno.
O rastreio também não é o mesmo que fazer um "check-up" geral ou realizar exames apenas "para ver se está tudo bem". Se uma pessoa apresentar sintomas, já não se trata de uma situação de rastreio, sendo necessária uma avaliação médica individualizada.
Então, por que razão não são realizados rastreios para todos os tipos de cancro?
Porque o simples facto de existir um exame capaz de detetar uma doença não significa que seja útil aplicá-lo a toda a população.
Para que um rastreio seja recomendado, é necessário demonstrar que os seus benefícios superam os possíveis riscos. É preciso, entre outras coisas, que a doença possa ser detetada numa fase em que tal tenha impacto, que exista um teste adequado, que existam tratamentos eficazes e que seja possível acompanhar as pessoas com resultados alterados.
Isto acontece porque os rastreios também podem ter consequências indesejáveis, como falsos positivos, exames desnecessários, ansiedade ou sobrediagnóstico, ou seja, a deteção de uma alteração que nunca chegaria a causar problemas ao longo da vida da pessoa.
Quais são, então, os rastreios oncológicos organizados em Portugal?
Atualmente, existem três programas de rastreio oncológico de base populacional no nosso país:
- Cancro da mama → dirigido à população feminina entre os 45 e os 74 anos, através de mamografia, habitualmente de 2 em 2 anos.
- Cancro do colo do útero → dirigido às mulheres entre os 30 e os 69 anos, através da pesquisa do HPV, habitualmente de 5 em 5 anos.
- Cancro do cólon e reto → dirigido a homens e mulheres entre os 50 e os 74 anos, através da pesquisa de sangue oculto nas fezes, habitualmente de 2 em 2 anos.
Não necessariamente.
Os programas de rastreio populacional destinam-se, de um modo geral, a pessoas com risco habitual. Quando existe um risco individual aumentado, a estratégia pode ser diferente.
No caso do cancro da mama, por exemplo, algumas pessoas com alterações genéticas específicas que as coloquem em risco elevado ou com uma história familiar relevante podem necessitar de uma vigilância mais precoce e/ou diferente daquela que é recomendada para a população em geral. Por conseguinte, é importante discutir com o médico uma história familiar relevante de cancro da mama ou do ovário, a fim de determinar se é necessária uma avaliação de risco específica.
O mesmo acontece com o cancro colorretal. Na população de risco habitual, o rastreio é realizado através da pesquisa de sangue oculto nas fezes. No entanto, em determinadas situações de risco familiar aumentado, a estratégia pode ser diferente, podendo a colonoscopia ser utilizada como exame de rastreio primário. Por exemplo, perante determinados antecedentes familiares de cancro colorretal, não se deve simplesmente seguir o esquema destinado à população em geral.
E os outros cancros? Também podem ser rastreados?
Alguns estão atualmente a ser estudados ou desenvolvidos para eventual implementação de programas de rastreio:
Cancro do pulmão:
Em Portugal, estão a ser realizados projetos-piloto para avaliar a aplicação de um programa de despistagem do cancro do pulmão, que consiste na realização de TAC de tórax de baixa dose. Este programa dirige-se sobretudo a pessoas com elevado risco, nomeadamente aquelas com um histórico significativo de tabagismo. No entanto, isto não significa que todos os fumadores devam realizar uma TAC do pulmão. O objetivo é compreender qual a melhor forma de identificar precocemente a doença em pessoas que possam beneficiar desse rastreio.
Cancro da próstata:
Aqui, a questão é mais complexa. Embora o doseamento do PSA possa detetar alterações na próstata, não existe atualmente um programa de rastreio do cancro da próstata organizado a nível populacional em Portugal.
Tal deve-se, entre outros motivos, ao facto de não haver um equilíbrio entre os possíveis benefícios e os riscos do rastreio, que incluem falsos positivos, biópsias e tratamentos de tumores que nunca causarão problemas. Por conseguinte, a decisão de realizar o teste do PSA deve ser individualizada, tendo em conta a idade, os fatores de risco e as preferências da pessoa, de preferência em conjunto com o médico.
Cancro do estômago:
Esta é também uma das áreas consideradas nas recomendações europeias para o desenvolvimento de novos programas de rastreio. No entanto, atualmente, não existe em Portugal um programa populacional de rastreio organizado.
Se não existe rastreio para um determinado cancro, significa que não devemos estar atentos?Não, significa apenas que não está demonstrado que a realização de rastreios sistemáticos traga mais benefícios do que riscos à população em geral.
Há, no entanto, outra situação muito importante a considerar: se surgirem sintomas novos ou persistentes, não se deve esperar pelo próximo rastreio. Alterações como sangue nas fezes, alterações persistentes do trânsito intestinal, perda de peso inexplicada, alterações na mama ou hemorragias anormais devem ser avaliadas por um profissional de saúde.
Mensagem final
Prevenir não é procurar todas as doenças em toda a gente.
É saber o que procurar, em quem procurar e quando procurar.
Porque, na prevenção, fazer mais nem sempre significa fazer melhor.
"Conversas sobre Saúde."
