Gonçalo Pacheco
Crónica 10 (07-06-2026)
"Eu vou Morrer de Amor ou Resistir" é um dos grandes discos portugueses de 2025. Representa um marco na carreira de Carminho, mas também um enorme salto em frente na abordagem daquilo a que chamamos Fado.
Verdade seja dita que Carminho sempre recusou ser vista como apenas uma fadista, apesar de o fado lhe corre nas veias desde o seu nascimento, pois é filha da fadista Teresa Siqueira, e desde menina que frequenta as casas de fado, tendo sido aí que tudo começou. Primeiro com uma apresentações esporádicas, onde a sua voz e a sua presença de menina encantavam quem a ouvia. Depois, a partir dos 22 anos, quando decidiu seguir uma carreira musical.
Carminho, que hoje é, justamente, considerada uma das principais vozes do novo Fado, não obedece às regras rígidas desta canção. A sua voz esbate definições, pois é, ao mesmo tempo, contemporânea e tradicional. Quando a ouvimos somos levados pela sua sensibilidade e pela inteligência com que se combina com guitarras eléctricas, pianos e sintetizadores. E assim a sua música torna-se inclassificável, incatalogável. A delicadeza dos arranjos permite-lhe abrir o Fado à música experimental. Para Carminho, "não se trata de mudar o Fado, é trabalhar sobre ele, como uma artesã, com as mãos".
Ao longo da sua carreira já colaborou com Carlos do Carmo, Alceu Valença, Marisa Monte e os Tribalistas. Recentemente tornou-se conhecida a nível mundial pela colaboração no último disco de Rosalía. Todos lhe reconhecem o bom gosto e uma voz absolutamente única. Barack Obama incluiu-a na playlist das músicas da sua vida.
A sua ligação à música brasileira permitiu-lhe gravar com Caetano Veloso e em 2016 gravou "Carminho canta Tom Jobim", acompanhada pela banda que tocou com o génio brasileiro nos seus últimos dez anos. Este disco viria a receber diversos galardões e permitir-lhe a participação , como convidada especial, em concertos de Chico Buarque e Milton Nascimento, por exemplo.
Até que chegamos a "Eu vou Morrer de Amor ou Resistir", disco que conta, entre outras, com a colaboração de Laurie Anderson. Neste disco Carminho supera-se e transporta-nos para uma outra dimensão. Catalogá-lo será sempre um exercício redutor. É, "apenas" um disco de grandes canções, sendo que se torna difícil escolher apenas uma. Mas como tem de ser, deixo para escuta "Pela Minha Voz", um poema de Joana Espadinha, aqui numa interpretação ao vivo na Rádio Comercial.

