Gonçalo Pacheco
Crónica 1 (06-04-2026)
Escolher uma canção de José Afonso é um sacrilégio, pois são dezenas as que aqui poderiam figurar, numa obra ímpar de diversidade, descoberta de novos caminhos e sonoridades, num estado de permanente inquietação que acompanha os génios. Não seria difícil andarmos mais de um ano a ouvir apenas o Zeca.
A escolha recaiu em "Mulher da Erva" que se encontra no seu disco de 1971, talvez o mais importante da música portuguesa, "Cantigas do Maio" (sim é também lá que está a "Grândola", "Cantar Alentejano", "Coro da Primavera", "Milho Verde" entre outras preciosidades).Este disco à data foi considerado por uns como um perigoso manifesto contra o regime, tendo esse mesmo regime se encarregado de censurar a maior parte das suas canções e proibir a sua passagem na rádio. É lendária a ignorância dos censores que proibiram tantas canções e permitiram que se ouvisse a "Grândola", que pensavam ser uma canção tradicional.
No entanto, o disco foi gravado nos arredores de Paris, no Château d'Herouville, na altura um dos mais prestigiados estúdios, em condições impensáveis, pela sua qualidade, para os estúdios portugueses. A visão de Arnaldo Trindade, proprietário da editora Orfeu, permitiu essa "extravagância". O disco foi magistralmente produzido por José Mário Branco, que será o protagonista de uma das próximas crónicas.
Nesse disco são feitas várias referências ao Alentejo, desde o assassinato de Catarina Eufémia em "Cantar Alentejano" até episódios de gente martirizada como a vendedora de erva que trabalha exausta até ao dia da morte "Há quem viva sem dar por nada/ Há quem morra sem tal saber".
Consta que José Afonso ficou de tal forma impressionado com as condições de vida dos trabalhadores no Alentejo, sobretudo as mulheres, que lhes dedicou esta canção. É também uma homenagem ao Alentejo que me levou a escolher esta canção.
OUVIR

