Gonçalo Pacheco

Crónica 2  (13-04-2026)

1971 foi um ano como, provavelmente, não houve outro na história da música portuguesa. Assim, de memória posso referir "Cantigas do Maio" de José Afonso, "Sobreviventes", primeiro disco de Sérgio Godinho, "Movimento Perpétuo" de Carlos Paredes, "Gente de Aqui e de Agora" de Adriano Correia de Oliveira, os festivais de Vilar de Mouros e de Jazz de Cascais (ambos com episódios que ficaram na história da música portuguesa). É também o ano em que Manuel Freire musicou o poema de António Gedeão "Pedra Filosofal".


Mas este ano único na história da música portuguesa foi também o do lançamento do primeiro disco de José Mário Branco "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades".

José Mário Branco, músico portuense, falecido em Novembro de 2019, foi, e será sempre, um dos mais geniais compositores, interpretes e produtores portugueses. Para além da produção de "Cantigas do Maio", referido na semana passada, foi o responsável pela transformação de Camané num dos maiores nomes da história do Fado, por exemplo. Ou por esse grupo, absolutamente único, que foi o GAC- Vozes na Luta, nos anos de 1975/76.

Em 1971, José Mário Branco estava exilado em França desde 1963, para fugir à Guerra Colonial (apenas regressou a Portugal após o 25 de Abril de 1974). Aí participou em diversas experiências culturais e políticas, como por exemplo o Maio de 68. Possuidor de uma sólida formação musical (estudou piano, flauta, percussão, composição, orquestração, análise musical e etnomusicologia), contactou com nomes importantes da "chanson française" e foi também em Paris que conheceu Sérgio Godinho, com quem trabalhou neste disco assim como no primeiro disco de Sérgio, "Os Sobreviventes".

Foi sua a ideia de gravar o som do pisar da gravilha junto do castelo de Hérouville com que se inicia a "Grândola", remetendo para o arrastar tão característico do cante alentejano.

O seu primeiro disco foi um caso sério pelo rigor da produção, pela originalidade dos arranjos e pela forma como musicou e interpretou poetas como Luís de Camões ou Natália Correia. Sobre esse disco escreveu José Duarte "Estamos perante um mural sonoro do Portugal das últimas gerações, um mural onde as cores são a mordacidade e a caricatura, um mural onde os temas são a emigração e o regresso, o medo e os fantasmas, o tempo e as novidades".

Nesse disco, em que a maior parte das canções entrou directamente para o cancioneiro da música portuguesa, destaco "Queixa das Jovens Almas Censuradas", um belo e perturbador poema de Natália Correia, um retrato do Portugal onde os fantasmas eram tão educados que se adormecia no seu ombro. Mais tarde, José Mário Branco viria a regravar este poema no seu disco "Ser Solidário", onde também podemos encontrar esse manifesto único que é "FMI".

Não sei haverá, na história da música portuguesa, poemas tão ricos interpretados de forma tão autêntica.

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