Crónica 1 (28-02-2026)
Foi com prazer que aceitei o convite para estas pequenas crónicas de partilha de saberes.
Se o saber não ocupa lugar, a curiosidade alimenta a vida, amar o que se conhece é decisivo para o proteger e preservar.
Amarelos de inverno.
Sou de um tempo em que um outono pródigo de pluviosidade, e amenas temperaturas, fazia rebentar os saramagos. Os rinchões antecipavam-se com as suas flores amarelas e pintavam os campos, principalmente os campos onde gado não tivesse o seu pastigo. E gostavam, em particular dos olivais, precisamente por serem lavrados várias vezes ao longo do ano, para eliminar ervas prejudiciais e arejar a terra. A sua mobilização era prática corrente, entretanto substituída pelo uso de herbicidas. Esta Diplotaxis catholica para a ciência dominava até que dias a fio de geadas a eliminassem.
Entretanto, principalmente aqui pela Serra, as Calendulas do campo, Erva vaqueira ou Maravilha, uma das muitas a que o povo chama de malmequeres, com invernos mais amenos, com o verde característico das suas folhas e as suas pétalas amarelas das flores, ganharam terreno e foram elas que foram atapetando muitas parcelas de terreno. Cientificamente têm o nome de Calendula arvensis.
Mas passaram a ter concorrência cada vez maior das chamadas azedas, nome que provém do seu sabor avinagrado, dado conterem ácido oxálico um composto que pode provocar cálculos renais. Taxonomicamente é do género Oxalis e da espécie pes-caprae. Mas o pior é a praga que são e por isso o povo lhe chama Praga de hortelão, muito difíceis de erradicar dado que se agarram ao solo com os seus poderosos nódulos azotados.
Este ano são aos montes e veem-se manchas por todo o lado, sofregamente a apanhar sol. Também são sensíveis à geada, mas como, praticamente, não as houve, estão nas suas "sete quintas". Diria que as há em muitíssimas mais...
Pode até parecer bonito mas esta invasora implacável, originária da África do Sul faz recuar espécies nossas e se a Calêndula se vai aguentando outras nem tanto, como os Saramagos rinchões, por exemplo, ou as muitas leitugas, ou falsos dentes de leão no dizer do povo, também de luxuriantes pétalas amarelas, às camadas.
As Calêndulas, para além de belas, são das de mais e diversos usos medicinais, e estão mesmo à mão. Em infusões, como anti inflamatória, em "água de rosas", em gagarejos para afinarem a garganta, pomadas e cremes para a pele, enfim, basta pesquisar um pouco, mas considerando que mesmo o que é natural tem de ser na conta certa, como indicam os especialistas.
Mas com as mudanças repentinas de tempo, de frio logo para calor, outros amarelos surgem apressados. Um deles é o da Carqueja, que faz um belo arroz e, com a parcimónia que se recomenda, faz um bom chá que ajuda a depurar o fígado. Tenho pena que seja usada para outros fins menos nobres, depois de secas.
No seu tempo também já aí estão os Narcisos silvestres, como os Cantarinhos, ou Narcissus triandus ou os Narcissus bulbocodium.
Mas nem tudo o que luz é oiro e assim acontece também com os amarelos. As mimosas que até os poetas cantam e têm um cheiro inebriante também já aí estão e essas são mesmo das invasoras mais perigosas. Que me perdoem, mas que também por métodos naturais, havendo paciência, pele-se uma pequena faixa do tronco, para que a seiva por ele não circule e assim possam ir perecendo!
É que, como as azedas, ambas fazem parte da lista de invasoras do ICFN..
Identificação das fotos nos comentários.








