António Fernandes Delicado
Crónica 1 (07-03-2026)
A Filarmonia no tempo
Ao iniciar a minha primeira crónica "Até as Pedras da Calçada" onde era inicialmente suposto falar de "Músicos de Alegrete, com História" decidi começar pela raiz: para melhor entender os Músicos Filarmónicos deve conhecer-se o contexto histórico que lhes deu origem.
O Movimento Filarmónico na Europa:
… em meados do Séc. XVII a música liberta-se da Igreja, das Cortes Reais e dos Salões Aristocráticos, porém só no inicio do Séc. XIX se constroem os primeiros instrumentos dignos de alternativa aos diversos registos vocais. A Música alarga a sua acção para grupos de trabalhadores em democráticas instituições sociais. Seria o nascimento das Sociedades Filarmónicas.
Assim: em 1813 funda-se a 1ª Sociedade Filarmónica em Londres; em 1823 nasce a 1ª Sociedade de concertos, em Paris e em 1843 surge a Orquestra Filarmónica de Viena.
Em Portugal aparecem os primeiros sinais da Filarmonia com Domingos Bontempo, regressado de Londres e Paris para fundar, em Lisboa, a 1ª Sociedade Filarmónica em 1822. A partir daqui gera-se um movimento entusiástico que levaria à fundação de dezenas de Filarmónicas em todo o país. É de realçar que as Filarmónicas não eram apenas vistas como conjuntos instrumentais com objectivos culturais. A elas se colavam objectivos políticos e partidários. Durante o Estado Novo não se fomentava a criação de novas Filarmónicas. Tolerava-se a sua existência desde que se cumprissem com as normas estabelecidas.
Também durante a Guerra Civil (1850-1890) a maioria das Filarmónicas tiveram como principais apoiantes ou absolutistas ou liberais que delas se serviam para apoio eleitoral. Daí, em muitas terras, a existência de 2 Filarmónicas.
O Séc. XIX é o período em que se cria uma espécie de "micróbio filarmónico" cujo entusiasmo dá origem à fundação da maioria das Filarmónicas que ainda hoje existem em Portugal.
Este fenómeno de cultura popular teve como principal entusiasta Pedro Freitas que define assim o FILARMÓNICO: "às sociedades filarmónicas quem lhes empresta mais solidariedade? Quer no campo artístico, quer no campo económico, são, em geral, as classes menos abastadas. Nas outras, infelizmente, poucas dedicações se encontram. É no pedreiro, no trabalhador, no sapateiro, no carpinteiro, no empregado humilde, que se encontra a verdadeira e desinteressada dedicação (…) são estes os obreiros anónimos que sustentam, no país, a MÚSICA DO POVO.
Cabe, cada vez mais, às Bandas Filarmónicas a tarefa da sociabilização, de colectivo, na medida em que permaneçam no meio das comunidades, vivendo para elas e no seio delas.As Associações Filarmónicas podem ter, hoje, outros patamares culturais, sociais ou até mesmo políticos, mas continuam a desempenhar um lugar imprescindível dentro da comunidade onde desenvolvem o seu trabalho. Desempenham importantes funções identitárias associadas a um vasto património humano e cultural.
Foram das primeiras instituições que se organizaram em colectividades e se estruturaram de acordo com as regras do associativismo.
(…)
As Filarmónicas são grupos de músicos vocacionados para actuações ao ar livre, na rua, na praça, no coreto, mas podem igualmente fazer as suas apresentações em recintos fechados, como nas suas próprias sedes, em teatros ou em salas de concertos.
Relativamente aos Músicos das Filarmónicas, muitas são as histórias que se poderão contar e em todas elas, certamente, encontraremos um aspecto que lhes é comum e que se prende com a motivação que cada músico tem que ter, para que dedique as suas horas livres à prática instrumental colectiva e à Filarmónica. Todos têm as suas ocupações, trabalham ou estudam, o que leva a que a sua integração na Banda parta de uma atitude amadora e voluntária, por amor à música e pelo interesse e motivação que esta prática desperta.
Amadores, sim, mas com convicção e entrega. São dignos de respeito e reconhecimento!
(Texto resumido a partir de "Filarmónica de Alegrete – As Memórias que o Tempo Guardou" 2010 )

