Hermenegildo Correia

Crónica 1 (20-03-2026)

Primeira crónica sobre alegretenses notáveis

DINIS PACHECO – UM CIDADÃO EXEMPLAR


Damos início às crónicas sobre alegretenses notáveis, com Dinis Parente Pacheco, um alegretense muito querido e reconhecido em Alegrete, como o atesta a existência da Rua Doutor Dinis Pacheco. Dinis Pacheco deixou-nos recentemente (no passado dia 10 de janeiro).O Dr. Dinis Pacheco teve um percurso marcante em vários domínios: educação, política local, cultura e associativismo.

No domínio da educação, foi um professor de História (em que era licenciado), exercendo na antiga Escola Industrial (atual Escola Secundária de S. Lourenço). O blog 'Largo dos Correios' (da autoria do professor António Martinó), refere-se nestes termos ao Dr. Dinis Pacheco: "Como professor, para além de uma exemplar competência, foi um pioneiro no domínio da utilização pedagógica dos meios audiovisuais (…)". Gonçalo Pacheco (um dos seus filhos), num emotivo texto de homenagem ao seu pai, publicado no Jornal Alto Alentejo, escreve o seguinte, sobre a relação pedagógica do Dr. Dinis Pacheco com os seus alunos: "(…) sempre o trataram com o carinho que apenas se dispensa a quem se admira e gosta e que reconheceram o seu pioneirismo, a audácia de fazer diferente, de não impor soluções, mas sugerir caminhos" (in Jornal Alto Alentejo, 14 de janeiro de 2026). Sobre a relação de Dinis Pacheco com os seus colegas, Gonçalo Pacheco acrescenta que o seu pai "nunca abdicou dos seus princípios, que sempre trabalhou para um ensino e uma educação mais humana, fosse enquanto professor ou na qualidade de Presidente do Conselho Diretivo, que se afirmou, não pela autoridade que o poder confere, mas pelo exemplo que apenas se reconhece aos competentes e empenhados nas causas em que se envolvem" (in Jornal Alto Alentejo, 14 de janeiro de 2026).

No domínio político, Dinis Pacheco foi Presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Portalegre (entre 23 de julho de 1974 e 5 de janeiro de 1977), na transição da ditadura para a democracia. Como é sabido, o período a seguir ao '25 de abril' foi um período de profundas transformações a todos os níveis, designadamente a nível político. Mário Silva Freire refere-se nestes termos à eleição de Dinis Pacheco para aquele cargo: "Era um homem de convicções fortes e corajoso. E foram estas características que o chamaram, naquele turbilhão da História, após o '25 de abril', a presidir à Câmara Municipal de Portalegre. Ainda me recordo, no Pavilhão Gimnodesportivo da Cidade, de braço no ar, ter participado na sua eleição" (Mário Silva Freire – Dinis Parente Pacheco – Uma Vida ao Serviço do Bem Comum. In Jornal Alto Alentejo, 14 de janeiro de 2026). Foi ainda vereador da Cultura e Desporto (entre 1977 e 1980), no mandato de Fernando Soares (eleito nas listas do PS, que o convidou, e de quem se tornou amigo durante toda a sua vida. Como Presidente da Comissão Administrativa, "(…) não deixou ninguém indiferente pela forma como não desistia dos seus propósitos e ideais de transformar o concelho e a vida de quem cá vive, em coisas tão óbvias como ter direito a água canalizada em todas as casas ou transformar caminhos agrestes em estradas ou planear um bairro que pudesse acolher todos os que dele necessitassem" (Gonçalo Pacheco in Jornal Alto Alentejo, 14 de janeiro de 2026). Dinis Pacheco perdera a eleição para a Câmara Municipal de Portalegre para Fernando Soares, "mas foi este que, vendo em Dinis Pacheco, embora seu adversário político, o homem íntegro e competente, o chamou como Vereador da Cultura" (Mário Silva Freire, Dinis Parente Pacheco – Uma Vida ao Serviço do Bem Comum. In Jornal Alto Alentejo, 14 de janeiro de 2026). Este episódio revela a estatura destes homens (Fernando Soares e Dinis Pacheco), pondo os interesses do concelho de Portalegre acima das divergências partidárias. Sem dúvida, uma prática que deve ser replicada pelos autarcas portugueses. Como vereador da Cultura, Dinis Pacheco ajudou a transformar Portalegre numa cidade com hábitos e instituições diversas no plano cultural e nessa medida ajudou também a democratizar a cultura (Gonçalo Pacheco in Jornal Alto Alentejo, 14 de janeiro de 2026 e Mário Silva Freire, Dinis Parente Pacheco – Uma Vida ao Serviço do Bem Comum. In Jornal Alto Alentejo, 14 de janeiro de 2026). Em 1997, foi atribuída a Dinis Pacheco a Medalha de Mérito Municipal – grau Ouro.

No domínio da cultura e do associativismo, Dinis Pacheco, "Ainda jovem, integrou o conjunto de amigos e companheiros que fundou e manteve o 'Amicitia – Grupo Cultural de Portalegre' (in blog Largo dos Correios, 16 de janeiro de 2026). Como a designação sugere, este grupo visava promover a arte e a cultura na cidade, através de conferências, palestras, teatro, cinema, exposições de pintura e artes plásticas, música e eventos folclóricos e recreativos. O professor António Martinó refere como exemplo, a ligação de Dinis Pacheco à criação, em abril de 1978, do Atelier de Artes Plásticas, posteriormente liderado pelo professor Aurélio Bentes Bravo (in blog Largo dos Correios, 16 de janeiro de 2026). E ainda a participação de Dinis Pacheco por diversas vezes em "júris de concurso de modalidades competitivas no 'Festival Ambiente', entre 1998 e 2004" (in blog Largo dos Correios, 16 de janeiro de 2026). Dinis Pacheco presidiu durante duas décadas à Assembleia Geral da Sociedade Recreativa Musical Alegretense (SRMA) e desempenhou um papel fundamental na criação da sede da Banda de Música – talvez o mais importante fator de identidade de Alegrete -. O seu papel é assim apreciado pela Banda Filarmónica da SRMA: "(Dinis Pacheco) figura emblemática, a quem a SRMA muito fica a dever: presidiu durante cerca de duas décadas à Assembleia Geral; dedicou de forma apaixonada muito do seu tempo às causas da Sociedade; principal impulsionador na construção da atual sede (doando os terrenos); dinâmico, ativo e sempre presente em todas as atividades. O Dr. Dinis Pacheco pertence a uma casta de pessoas difíceis de substituir" (in Facebook da Junta de Freguesia de Alegrete). Dinis Pacheco foi também presidente da mesa da Assembleia Geral dos Bombeiros Voluntários de Portalegre e depois presidente da direção da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Portalegre. Durante o seu mandato foi construído o pavilhão do quartel (in Chat GPT, informação recolhida em 4 de março de 2026). Dinis Pacheco foi ainda presidente da Mesa da Assembleia Geral da Santa Casa da Misericórdia de Portalegre. Já aposentado, foi responsável pelo economato desta instituição, "(…) que assumiu num espírito verdadeiramente missionário, onde a sua reconhecida "teimosia" permitiu que do pouco se fizesse muito, possibilitando dessa forma uma melhoria da qualidade de vida dos utentes sem comprometer a sustentabilidade económica desta instituição, tão nobre quanto necessária" (Gonçalo Pacheco in Jornal Alto Alentejo, 14 de janeiro de 2026).

Todas estas observações permitem inferir que estamos perante um homem bom, um cidadão com uma prática cívica exemplar, pautada pelo humanismo, democracia, inclusão, diversidade – valores universais e bem importantes nos tempos atuais, em que estão a ser atacados, em Portugal e no mundo. Donde ser imperativo replicar práticas cívicas/cidadãs, como as protagonizadas pelo Dr. Dinis Pacheco. A este propósito, refira-se a título de exemplo que Francisco Pacheco (outro dos filhos de Dinis Pacheco), preside à Assembleia Geral da SRMA, ou seja, o legado de Dinis Pacheco continua nos seus filhos, Gonçalo e Francisco.

Março de 2026

Hermenegildo Correia